01/02/2012

Escrevo pela paixão de te inventar de um nada



Escrevo pela paixão de te inventar de um nada,
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exatidão do nome.

Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que eu experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!

Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.

És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.

António Ramos Rosa



Orientações de leitura

1. Lendo este soneto, compreende-se que nele se exprime uma dupla criação: a do cavalo e a do Homem.

2. Todavia, a criação do cavalo não é mais do que um pretexto para a criação do Homem, corno um ser livre.

3. As qualidades do cavalo ou de que o cavalo é símbolo são aquelas que o sujeito lírico pretende ver instituídas no Homem.

4. Compreende-se o sentido de "uma vida pura e vertical".

5. O Homem é, pois, simultaneamente sujeito e objeto da criação.