
Escrevo pela paixão de te inventar de um nada,
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exatidão do nome.
Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que eu experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!
Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.
És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.
António Ramos Rosa
Orientações de leitura
1. Lendo este soneto, compreende-se que nele se exprime uma dupla criação: a do cavalo e a do Homem.
2. Todavia, a criação do cavalo não é mais do que um pretexto para a criação do Homem, corno um ser livre.
3. As qualidades do cavalo ou de que o cavalo é símbolo são aquelas que o sujeito lírico pretende ver instituídas no Homem.
4. Compreende-se o sentido de "uma vida pura e vertical".
5. O Homem é, pois, simultaneamente sujeito e objeto da criação.