14/01/2012

Leitura (s) de Frei Luís de Sousa

Sem falar do empenhamento de Garrett na renovação e na dignificação do Teatro português, que explica grande parte da sua produção dentro do género, são conhecidos muitos factos importantes relacionados com a escrita do Frei Luís de Sousa. [...] Garrett, de princípios de março a fins de abril de 1843, ficou uma temporada em casa retido por uma "forte canelada" que tinha dado, aproveitando essas semanas que lhe impossibilitavam a vida parlamentar para escrever a tragédia. Costa Pimpão analisou detida e convincentemente o quadro psicológico que teria sido o do nosso autor, em consequência da morte, ocorrida dois anos antes, de Adelaide Pastor, de quem Garrett tinha uma filha pequena e que lhe havia dado outros dois filhos entretanto falecidos. A ilicitude daquela relação extraconjugal, conquanto o escritor estivesse separado de sua mulher, Luísa Midosi, e a circunstância desta paternidade ilegítima teriam movido um Garrett preso de remorsos, de inquietações e de problemas de consciência de toda a ordem ligados a tal circunstancialismo, a abordar uma situação de estrutura semelhante na sua peça, uma vez que as imposições da religião católica criavam uma situação íntima e socialmente insustentável, tanto no período em que a ação decorria, como na altura em que a obra estava a ser escrita.
Por outro lado, Garrett provavelmente conhecia o caso de Frei Luís de Sousa, no século Manuel de Sousa Coutinho, desde muito cedo, graças ao Prólogo e vida do autor [...], de publicação póstuma. De resto, o caso do marido longamente ausente cujo regresso inesperado perturba a situação da mulher que, julgando-se viúva, casara segunda vez, tinha tido grande atualidade na Europa das Cruzadas, e é muito provável que se tenha repetido, no correr dos séculos, num país ligado às grandes e longas viagens marítimas, se não em termos de ocorrência de factos reais, ao menos como possibilidade inquietante a considerar e como variante extrema de outra situação frequente, a de quem partia e, no regresso, encontrava a pessoa amada casada com um terceiro.
Os precedentes apontados explicam a circunstância estranha de, na peça, nunca se falar de "Frei Luís de Sousa" que, como tal, nunca intervém. Uma única vez lhe é dado esse nome, já no final da peça. O título da obra supõe a informação ou a cultura do leitor ou do espectador, como já houve quem observasse, quanto ao que aconteceu a Manuel de Sousa Coutinho, depois de ter professado em S. Domingos sob aquele que veio a ser o seu nome religioso e literário. As pessoas, na época de Garrett, conheciam esse desfecho porque havia outras obras que tratavam do mesmo assunto [...].

MOURA, Vasco Graça, "Colóquios tão simples, desfigurações",
in Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas, n.° 4, janeiro-março de 1999
(com supressões)