08/05/2010

O Presencismo



Em 1927, um grupo de estudantes (José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca) funda, edita e dirige em Coimbra a revista literária Presença. Tendo por subtítulo sua qualificação de Folha de Arte e Crítica, o primeiro número sai a 10 de Março de 1927. Em 1930, com o número 27 da revista. Branquinho da Fonseca abandona-lhe a direcção, secundado por Miguel Torga (então assinando Adolfo Rocha, seu verdadeiro nome) e Edmundo de Bettencourt, que deixam de colaborar: na carta que enviam aos demais directores da Presença, datada de 16 de Junho de 1930, iniciam afirmando que a "Presença que se propunha, como folha de arte e crítica, defender o direito que assiste a cada um de seguir o seu caminho, começou a contradizer-se", e mais adiante lembram que a "Presença concebe mestres e discípulos com aquela interpretação convencional, em que os mestres fazem lições para os que se reputam alunos". Em lugar de Branquinho da Fonseca, no ano seguinte entra Adolfo Casais Monteiro, e assim a revista permanece até 1938, quando termina a primeira fase de sua existência: a II Grande Guerra tumultuando tudo, dita o fim à revista, cuja acção aliás chega também ao seu termo. Agora secretariada por Alberto de Serpa, a revista sai em Novembro de 1939, seguida dum segundo e último número da fase nova, em Fevereiro de 1940. Missão cumprida: nesse mesmo ano o Neo-Realismo aparece com toda a sua força revolucionária.
No primeiro número da Presença, José Régio sintetiza o programa de acção da revista no artigo intitulado Literatura Viva: "Em Arte, é vivo tudo o que é original.
É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe."
E mais adiante: "Pretendo aludir nestas linhas a dois vícios que inferiorizam grande parte da nossa literatura contemporânea, roubando-lhe esse carácter de invenção, criação e descoberta que faz grande a arte moderna. São eles: a falta de originalidade e a falta de sinceridade." E, por fim, como à procura duma síntese programática: "Eis como tudo isto se reduz a pouco: Literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura viva que ele produza será superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço." No terceiro número, de 8 de Abril de 1927, José Régio fala Da Geração Modernista e proclama Fernando Pessoa, Mário de Sã-Carneiro e Almada-Negreiros "mestres contemporâneos, porque mestres contemporâneos são os homens que, pior ou melhor, exprimem as tendências mais avançadas do seu tempo, isto é: a parte do futuro que já existe no presente. Enfim: são os futuristas.
Sucessores destes serão os que exprimem o futuro ainda não expresso por estes - os futuristas de depois. E. sempre assim, para diante." Com o artigo acerca de Literatura Livresca e Literatura Viva, publicado no número 9, saído a 9 de Fevereiro de 1928, José Régio lança o manifesto de seu grupo: "A finalidade da Arte é apenas produzir-nos esta emoção tão particular, tão misteriosa, e talvez tão complexa: a emoção estética." E mais adiante, no capítulo cujo nome, "A Arte pela Arte, ou a Literatura artística e as lunetas dos nossos críticos", é significativo por si só, afirma o líder presencista: "O ideal do Artista nada tem com o do moralista, do patriota, do crente, ou do cidadão. Quando sejam profundos e quando se tenham moldado a uma certa individualidade, tanto o que se chama um vício como o que se chama uma virtude podem igualmente ser poderosos agentes da criação artística: podem ser elementos de vida duma Obra." E falando desta, diz: "A finalidade da Obra será, consciente ou inconscientemente, a finalidade estética."
Noutros termos: continuando a linha do Orpheu, defendem o primado da "literatura viva" sobre a "literatura livresca". Para tanto, antepõem anarquicamente o individual ao social, a intuição a qualquer verdade objectiva ou racional, o "mistério" ao realismo fotográfico, etc. Propugnam, enfim, por uma "literatura artística". Em busca duma "literatura original, viva, espontânea", associam-se a metafísicas e abstractas concepções de arte, embora submeti-das a rigoroso crivo crítico. Ao mesmo tempo, "descobrem" e divulgar: alguns escritores europeus, como um Proust, um André Gide, um Apollinaire, um Jean Cocteau, um Max Jacob, um Valéry, um André Salmon, um Pirandello, um Reverdy, etc.
Afinal de contas, constitui uma profunda reviravolta aquilo que o grupo da Presença procu-rava realizar: simultaneamente à solidificação do Modernismo, implantava, ao menos teòri-camente, um regime de rigor e severidade artística que não deixou de dar excelentes frutos, sobretudo na parte referente à crítica literária.
Liga-se ao movimento presencista um elenco notável de poetas, prosadores e críticos, uns em função directiva, ou mais activa que outros, apenas incidentalmente colaboradores, ou irmanados por directrizes estéticas coincidentes: José Régio, Miguel Torga, Adolfo Casais Monteiro, José Rodrigues Miguéis, António Botto, Edmundo de Bettencourt (1899-), António de Navarro (1902-), Alberto de Serpa (1906-), Saul Dias (1903-), Francisco Bugalho (1905-1949), Carlos Queirós (1907-1949), João Gaspar Simões (1903-), Branquinho da Fonseca (1905-), Fausto José (1903-), Irene Lisboa (1892-1958), Vitorino Nemésio (1901-), Pedro Homem de Melo (1904-), Tomás de Figueiredo, etc. Muitos desses, alguns dos quais já tem lugar marcado na Literatura Portuguesa, cultivaram mais de um género, no encalço de atingir a consciência esteticamente criadora que julgavam essencial. Dentre todos, merecem destaque especial José Régio, Miguel Torga, Adolfo Casais Monteiro, José Rodrigues Miguéis, Branquinho da Fonseca, pelo que sua obra revela de maturidade e unidade, suficiente para justificar um juízo ainda em vida, e António Botto e Irene Lisboa.

Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa
Editora Cultrix, São Paulo