26/08/2009

O Romantismo na Europa



Os géneros e o estilo clássicos tinham-se desenvolvido em torno das cortes monárquicas, em pequenas rodas e salões de aristocratas ou de burgueses letrados. Na corte francesa, a mais brilhante da Europa, tinham florescido com mais esplendor que em qual. quer outro ponto estas formas aristocráticas, e sobretudo a tragédia clássica. Mas em certos países, como a Inglaterra, onde a vida de corte foi mais reduzida e onde a partir do século XVI cresce a ritmo rápido uma burguesia mercantil e industrial espalhada por toda a região, a influência da absorvente literatura clássica foi menor e os géneros e formas clássicos não chegavam para atender as solicitações de um público amplo e disperso. Aqui o teatro raciniano, sóbrio e de corte severo, feito para atentos e educados apreciadores, nunca conseguiu desenraizar o teatro shakespeariano, mais exuberante, visualista e patético; e desde o século XVII populariza-se o romance, g8nero adequado a camadas dispersas de leitores (Defoe, Richardson, Fielding, etc.). Mesmo em países mais dominados pela influência clássica aparecem obras para o grande público, fora dos moldes clássicos, como o Quijote, de Cervantes, onde se amalgamam o romance «picaresco» com o romance de cavalaria tradicional, formas ambas muito populares.

No final do século XVIII, a pressão do novo público acentua-se e as guerras e revoluções que aboliram em diversos países as aristocracias governantes privaram da sua base de vida a élite literária que se exprimia na tragédia e nos outros géneros clássicos. 0 novo público, disseminado, informe, desigual, pede um alimento espiritual que os clássicos lhe não podiam dar. É um público sem educação literária, ignorando os valores tradicionais, a gíria poética, a virtuosa técnica, as alusões mitológicas e outras. Prefere uma linguagem mais correntia e mais directa, mais abundante que sóbria, pouco lhe importando que o autor infrinja ou não os padrões do bom gosto estabelecidos pela herança literária. Tendo um contacto mais directo com a vida real e com a natureza, este mesmo público aprecia o descritivo concreto, a paisagem, o pitoresco; e, tendo uma sensibilidade mais espontânea e impulsiva, ~ mais sensível do que as antigas élites aos enredos romanescos, ao sensorial e ao exótico, ao sentimentalismo, e menos exigente de contenção, mesura e sobriedade. Mas, por outro lado, sendo os problemas de grandes massas humanas mais variados e prementes que os das pequenas Elites, a nova literatura oferece uma variedade de temas e uma riqueza de conteúdo que excedem largamente as da literatura clássica e nos dão aspectos até aí excluídos da boa sociedade literária.

O escritor, emancipado da protecção mecenática e dependente do público burguês, aureolado de admiração, ganha uma nova consciência do seu papel relativamente às massas, chegando em alguns casos a sentir-se como que um profeta, condutor de povos. (...)

Outra característica geral do romantismo é o espírito histórico. A burguesia, consciente de que transformou o mundo social e encontrando perante si amplas perspectivas de futuro, traz para a literatura a noção do progresso indefinido da humanidade e da relatividade e evolução das civilizações. Esta noção já havia inspirado Voltaire e Condorcet, que viam na história a luta pela liberdade das maiorias oprimidas; mas os historiadores românticos, como Guizot e Thierry, introduzem na historiografia a noção da luta de classes focando os combates da burguesia, ou terceiro estado, contra a aristocracia hereditária e o clero.

Este espírito histórico está também relacionado com o movimento das nacionalidades, resultante do desenvolvimento em cada país das burguesias nacionais, e que é uma das características salientes da primeira metade , do século XIX. Desenvolveu-se o gosto pelas tradições locais, pela poesia popular (folclore), pela história e pela literatura medieval. O classicismo apareceu um pouco por toda a parte, mas sobretudo na Alemanha, ocupada por Napoleão; como uma imposição da cultura francesa; e a Idade Média, pelo contrário, como a época áurea da espontaneidade nacional e popular.

Para suprir a tradição clássica abolida procuraram-se novas fontes literárias, tais como os cantos tradicionais, o teatro shakespeariano, o teatro barroco espanhol.

Dentro destas características gerais, condicionadas por factores sociais comuns a toda a Europa ocidental, o romantismo oferece nos seus diversos locais e épocas particularidades e variedades. Assim, na sua primeira fase, o romantismo aparece como anti-iluminista e anti-racionalista, exprimindo até certo ponto a crise da aristocracia feudal, abalada pela Revolução Francesa. Walter Scott doura poeticamente nos seus romances históricos os pergaminhos da nobreza de Inglaterra; Chateaubriand, em nome dos valores puramente afectivos e irracionais, defende contra o iluminismo a religião católica. Os teóricos do romantismo alemão defendem o estado monárquico e absolutista, prenunciando a unificação do país. Mas, no fundo, todos estes autores, mesmo inconscientemente, representam uma sensibilidade mais larga e menos aristocrática que a dos clássicos e enriquecem a literatura com os gostos e os interesses da burguesia, para quem afinal escreviam.

António José Saraiva, História da Literatura Portuguesa