01/06/2009

O Teatro Clássico



O teatro clássico é capítulo secundário dentro do Quinhentismo português, sobretudo quando comparado com o vigor, o brilho e a espontaneidade do teatro vicentino, ao qual se opôs conscientemente, indo buscar inspiração na Antiguidade Greco-Latina, especialmente em Plauto, Terêncio e Séneca. A comédia clássica foi introduzida por Sá de Miranda: Os Estrangeiros, escrita em 1526 e publicada em 1569, vem precedida dum "Prólogo" em que o seu autor confessa, metaforicamente, estar realizando algo de novo em Português ("sou uma pobre velha estrangeira, o meu nome é Comédia; mas não cuideis que me haveis por isso de comer, porque eu nasci em Grécia, e lá me foi posto o nome, por outras razões que não pertencem a esta vossa língua".); Os Vilhalpandos, rira provavelmente em 1538 e publicada em 1560. Ainda escreveram comédia clássica: António Ferreira (Bristo e Cioso, ambas publicadas em 1622) e Jorge Ferreira de Vasconcelos (Aulegrafia, publicada em 1619; Eufrósina, publicada em 1555; Ulissipo, de cuja primeira edição se desconhece a data, e a segunda é de 1618). Tomando muito ao pé da letra os ingredientes das comédias plautinas e terêncianas, essas peças acabaram por esvaziá-las de sentido e por incorrer no defeito do convencional e esquemático das personagens e situações. A falta dum autêntico talento cénico ajuda a compreender a pobreza desse teatro.
A tragédia clássica só entrou tardiamente em Portugal, embora já em 1536 Henrique Aires Vitória fizesse a tradução para o Português da Electra, de Sófocles. Todavia, é em Latim e no âmbito fechado da Universidade de Coimbra que se representam algumas peças.
A Castro, ou, com o título por inteiro, Tragédia de D. Inês de Castro (publicada em 1587), de António Ferreira, concentra vários méritos, a saber: é a primeira tragédia clássica em vernáculo e praticamente única, além de ser uma verdadeira obra-prima no género. Tem, assim, características de peça sem igual, ao mesmo tempo que alcança uma concentração dramática, uma verdade psicológica na pintura dos caracteres, especialmente o da protagonista, um hábil emprego das partes fundamentais da tragédia clássica, numa linguagem poética fluente e apropriada ao ritmo ascendente da trama, - que a tornam uma das obras fundamentais da dramaturgia Portuguesa de todos os tempos. De Séneca talvez António Ferreira recebesse o altivo estoicismo que atribui às suas personagens, sobretudo a D. Pedro.

Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa
Editora Cultrix, São Paulo