11/05/2009

A Poesia. O "Cancioneiro Geral"



Mesmo após o declínio do trovadorismo no final do século XIV, a poesia continua a ser cultivada, mas sob a influência da nova atmosfera cultural inaugurada por D. João I. Grande parte da produção poética quatrocentista, compreendendo o reinado de D. João II e D. Manuel, foi recolhida por Garcia de Resende no seu Cancioneiro Geral (1516), por inspiração do Cancioneiro de Baena (1445), compilado por Juan Alfonso de Baena, onde colaboram alguns poetas portugueses, e do Cancioneiro General (1511), de Hernando del Castillo. As duas últimas colectâneas poéticas, porque espanholas, explicam o carácter castelhanizante do Cancioneiro Geral (contendo aproximadamente mil composições, de 286 poetas, cerca de 150 são escritas em Espanhol).

A poesia nele contida caracteriza-se, antes do mais, pelo divórcio operada entre a "letra" e a música. Noutros termos superada a voga da lírica trovadoresca, a poesia desliga-se de seus compromissos musicais, e passa a ser composta para a leitura solitária ou a declamação colectiva. A poesia torna-se autónoma, realizada apenas com as palavras, despidas do aparato musical, que a tornava dependente ou, ao menos, lhe coarctava o voo. O ritmo, agora, é alcançado com os próprios recursos da palavra disposta em versos, estrofes, etc., e não com a pauta musical. A poesia adquire seu ritmo próprio, torna-se "moderna", mas, diga-se de passagem, não cessará daí por diante de buscar o antigo consórcio através duma série de tentativas, sobretudo a partir da revolução romântica.

Por isso, é fácil compreender que a libertação desejada acabou provocando uma verdadeira crise poética: que fazer com as palavras, subitamente postas em liberdade, independentes da música? Alguns procuraram ou encontraram o ritmo que lhes era inerente, quer dizer, o ritmo especificamente poético, formado pela sugestão de "atmosferas" líricas - e fizeram obra perdurável. Outros, constrangidos dentro da nova moda, faltos de talento, ou equivocados com a revolução poética em processamento, entendiam que bastava juntar palavras formando versos para criar poesia - e falharam.

Entende-se, assim, que muitos poetas (praticamente não se fala mais em trovadores) compendiados por Garcia de Resende, em justiça e rigor deveriam ficar à margem: produziram poesia de circunstância, cujo conteúdo desapareceu por completo a ponto de hoje soar apenas como "exercício" poético ou puro virtuosismo formal. Basta o enunciado dos títulos de certos poemas para evidenciar a pobreza de certa parte da poesia do Cancioneiro Geral, justamente chamada pelo compilador de "cousas de folgar": "De Diogo Fogaça a uma dama muito gorda, que se encostou a ele, e caíram ambos, e ela disse-lhe sobre isso más palavras"; "De Dom Diogo a uma guedelha de cabelos que viu à senhora Dona Beatriz de Vilhena", "Do macho ruço de Luís Freire, estando para morrer", "Cantiga sua a uma dama que lhe tirou com uma pedra", de Luís Silveira, "A senhora D. Joana de Mendonça, sobre uma ave que lhe lançou duma janela", de Simão da Silveira, etc. Tais poemas, contudo, não chegam a empanar o brilho e a altura emotiva de outras composições, por vezes situadas ao par das obras-primas da lírica portuguesa.

Para contrabalançar a decadência do lirismo, os poetas quatrocentistas desenvolveram novas técnicas e estruturas poéticas, dentre as quais se podem citar as seguintes: a esparsa, composta de uma única estrofe de 8 a 16 versos; originária da Provença, destinava-se especialmente a comunicar sentimentos de tristeza e melancolia; a trova, composta de duas ou mais estrofes; o vilancete, formado de um mote (= motivo) composto de 2 ou 3 versos, seguido de voltas ou glosas, isto é, estrofes em que o poeta retomava e desenvolvia as ideias contidas no mote; a cantiga, formada dum mote de 4 ou 5 versos e de uma glosa de 8 ou 10 versos.

Vale a pena lembrar ainda que o Cancioneiro Geral introduziu o emprego compacto do verso redondilha (dividido em redondilha menor, com 5 sílabas, e redondilha Maior, com 7 sílabas), antes pouco apreciado, mas que gozará de sólido prestígio nas décadas seguintes.
A par dessas novidades formais, o Cancioneiro Geral trouxe novidades temáticas. De um lado, a influência clássica (Ovídio), de outro, o influxo italiano (Dante e Petrarca, este, com todo o peso do seu lirismo, centrado no conhecimento do amor e suas contradições. internas), e o espanhol (Marques de Santilhana, Juan de Mena, Gómez Manrique, Jorge Manrique), evidente no uso que alguns poetas faziam da língua de Castela, em substituição à galaico-portuguesa dos trovadores.

Registam-se ainda tentativas de poesia épica, a preparar o terreno para Camões. Faz-se poesia religiosa. Cultiva-se a poesia satírica, algumas vezes com grosseria, ou, mais raramente, refinando-se em ironia de admirável efeito. É digno de nota o longo poema de Álvaro de Brito Pestana, dirigido "A Luís Fogaça, sendo vereador na cidade de Lisboa, em que lhe dá maneira para os ares maus serem fora dela", um vivo documentário de seu tempo, erguido com impenitente e cortante azedume.
Todavia, o ponto alto do Cancioneiro Geral é representado pela poesia lírica. O amor-sofrimento, súplica mortal, continuando igual tendência do lirismo trovadoresco, é tema frequente. Retomando o subjectivismo da tradição, os poetas enriquecem-no de espiritualidade e platonismo, de que não é estranho o exemplo de Petrarca, mestre de poesia lírico-amorosa. Algo de novo, porém, se insinua nesse lirismo suplicante e contemplativo: a mulher perde seu halo ideal, desce à terra, carnaliza-se, adquirindo inclusive graças físicas e sensoriais, vedadas antes ao olhar do trovador. E a relação do poeta com a bem-amada gera duas "situações" novas, expressas em forma de desafio ou "tenção": logo à entrada da compilação, englobando 3172 versos, encontramos "O Cuidar e Suspirar", processo no qual se envolvem numerosos poetas; no segundo volume da crestomatia, temos as "Trovas que mandaram o Conde de Vimioso e Aires Teles a Senhora Dona Margarida de Sousa sobre uma porfia que tiveram perante ela, em que dizia Aires Teles que não se podia querer grande bem sem desejar, e o Conde dizia o contrário".

Ao mesmo tempo, num movimento psicológico que semelha prenunciar o Romantismo, os poetas quatrocentistas "descobrem" a Natureza, ainda graças a Petrarca: ela torna-se o consolo, confidente e refúgio para os males do amor. Um que de renascentista, e portanto "moderno", se mostra nessa transformação operada no âmbito das convenções lírico-amorosas: sente-se que os poetas palacianos da Corte de Avis preparam, com seus paradoxos e indagações acerca do Amor, o Camões lírico e, mesmo, o advento do Barroco.
Alguns poetas merecem especial referência, excepções felizes em meio à trivialidade lírica do Cancioneiro Geral. João Ruiz de Castelo-Branco representa-se com a "Cantiga sua partindo-se", amplamente conhecida e apreciada, onde a limpidez da linguagem e os achados expressivos servem de coro a uma primorosa síntese do lancinante sentimento de amar e ter de partir, num clima de quase elegia, tão mortificante o sofrimento que no poema se confessa: o ritmo, determinado por uma melopeia propositadamente monótona e plangente qual cantilena, ondulante e reticente, colabora com eficácia para conferir aos versos um ar de mistério e fugacidade, motivo suficiente para faze-los de permanente agrado ao leitor de poesia.

Garcia de Resende, o compilador de poesia quatrocentista, também se destaca com as Trovas à Morte de Dona Inês de Castro, graças ao forte sentimento de adesão ao "caso" da amante de D. Pedro, a ponto de possivelmente o poema haver estado presente no espírito de Camões quando este desenhou igual episódio n’ Os Lusíadas. Embora sem a força da cantiga de João Ruiz de Castelo-Branco, constitui-se numa das melhores composições do Cancioneiro Geral.
Podiam-se referir ainda outros poetas: Henrique da Mota, Francisco de Sousa, Diogo Lopes d'Azevedo, Diogo Brandão, Conde de Vimioso, Aires Teles Duarte de Brito, Jorge de Aguiar, João Afonso d'Aveiro e outros, sem contar ainda Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda, então a iniciar-se na carreira literária.


Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa
Editora Cultrix, São Paulo