17/05/2009

João de Deus




Intelectual pouco curioso, com uma concepção de vida tradicional moldada no seu catolicismo popular, animada pela sua bondade e sensibilidade inatas, João de Deus tinha, contudo, o sentido dos recursos de expressão poética mais permanente no idioma: a sua lírica amorosa e a sua sátira conservam-se muito mais comunicativas do que o sentimentalismo ultra-romântico e a poesia panfletária sua contemporânea.

Filho de um pequeno comerciante de S. Bartolomeu de Messines, João de Deus Ramos (n. 1830-03-08 - f. 1896-01-11) distinguiu-se em Coimbra, durante os dez anos em que fez a sua formatura (1849-59), por uma série de dons que o tornavam indispensável aos companheiros: o jeito para desenhar, para tocar viola e para improvisar líricas de gosto popular e sátiras estudantis. Já então, como sempre, eram os amigos que tratavam de escrever, seleccionar e publicar os versos que cantava ou ditava de cor. Depois de formado, tentou vida de advogado e de jornalista em Coimbra, Beja, Évora e, depois, Lisboa. Recordemos que em 1863, n' O Bejense, criticava Castilho. No meio de difíceis condições monetárias, que o obrigavam a aceitar trabalho de costura e a escrever versos pagos de encomenda, é à diligência de amigos e admiradores que deve, em 1869, duas surpresas: uma eleição para deputado e a edição da sua primeira grande colecção de poesias, Flores do Campo . Por solicitação de um livreiro, dedica-se depois à preparação da sua conhecida Cartilha Maternal, que se publica em 1876. Inicia-se deste modo a sua carreira de pedagogo, que lhe acarretou sérios desgostos até ao fim da vida, fazendo-o reagir com polémicas e sátiras, mas que também lhe valeu em 1895, a poucos meses do falecimento, uma das mais entusiásticas consagrações públicas de que foi alvo um escritor português. Em 1893, Teófilo Braga, um dos seus mais fervorosos admiradores, editava-lhe a mais completa colecção de poemas, o Campo de Flores, que em breve se esgotou, exigindo uma reedição que se seguiu de perto ao seu memorável funeral nacional.

O hábito de improvisar à viola variantes musicais e poéticas do cancioneiro popular e estudantil, de versificar para música, de trabalhar os seus poemas de cor e auditivamente, deve ter contribuído para que João de Deus nos deixasse uma série de poesias de tão simples e pura expressividade rítmica. O seu dom lírico, e também satírico, revela-se pela capacidade de regressar à expressão mais directa dos sentimentos, à expressão infantil ou feminina. Os seus poemas são feitos do material mais comum da língua: repetições, exclamações, anacolutos, um vocabulário correntio e um teclado restrito mas universal de imagens, que ele, às vezes, percorre enumerativamente: a flor, a ave, a pérola, a estrela, a lua, o céu, a luz, a fonte, o vento, a nuvem, o perfume... De tão simples recursos ou não se faz nada ou faz-se uma poesia que resiste como a do património oral das nações. É isto o que acontece com João de Deus: se o julgarmos pelos seus melhores poemas, nenhum dos poetas seus contemporâneos tem uma fala mais moderna que ele. A sua poesia repele qualquer declamação pretensiosa; as inflexões de voz que ela nos pede estão no ouvido, são as inflexões das crianças e da gente espontânea. Eis o que pode verificar-se em líricas como Beijo, Folha Caída, Sede de Amor, Adoração , Sol Íntimo ; na fábula Cabra , Carneiro e Cevado ; e em sátiras como O Dinheiro, A Monarquia , Eleições .
A esta simplicidade são, contudo, inerentes alguns riscos e defeitos. João de Deus nem sempre consegue evitar certa monotonia melopeica; o pequeno âmbito dos seus temas e recursos forçam-no, por vezes, a deslizar para os lugares-comuns ultra-românticos; certos preconceitos de moralismo burguês impõem-lhe que cubra de eufemismo pretensamente religioso alguns impulsos do seu temperamento ingenuamente sensual, como se todo o seu lirismo devesse subordinar-se à atitude do amor-adoração.
Mas o poeta não recorre apenas à estilística ultra-romântica quando desdobra a sua inspiração lírica para além dos recursos mais ingénuos. Um tino seguro leva-o a aproximar-se de Dante, Petrarca e Camões, sem falar da Bíblia, que é a sua predilecta fonte literária. Como vimos, Antero confessa dever a João de Deus a reabilitação do soneto camoniano. É evidente a lição dos poemas bíblicos no gosto das imagens em cascata, a dos renascentistas na idealização religiosa do amor e na capacidade de desdobramento dialéctico de certos sentimentos, embora tudo isso esteja assimilado a uma índole própria, que nunca deixa de manifestar-se na simplicidade dos meios verbais. A elegia A Vida, que é a sua obra-prima, constitui o melhor exemplo da síntese de todos estes elementos.

João de Deus teve precursores em Tomás Gonzaga, Caldas Barbosa e, até dispersamente, numa ou outra poesia em que os românticos de 40 a 50 conseguiram abeirar-se autenticamente da tradição folclórica, como pretendiam. Nem por isso deixa de impressionar o seu isolamento entre os poetas que se imprimem no século XIX. Apesar do seu magistério, depois ligado ao de Campoamor, o lirismo erótico e íntimo seu contemporâneo ou posterior é, em comparação, intelectualizado ou mundanizado (Lira Íntima, 1891, do erudito Joaquim de Araújo (1868-1917); Mocidade, 1882, de Fernando Caldeira (1815-1894); Dispersos, 1884, de Eduardo Coimbra (1864-84); O Meu Livro, 1908, de Fausto Guedes Teixeira (1871-1930). Mesmo Augusto Gil (1873-1929), que já tem sido aproximado de João de Deus, não pode considerar-se um produto genuinamente popular: é antes um produto da gazetilha jornalística, da graça do teatro ligeiro, da boémia intelectual de café e noitada. No entanto, deve ter-se em conta a tradição dos poetas e cantadores populares que, no Algarve, Alentejo e outras regiões de Portugal, se prolonga até aos nossos dias, como o mostra o caso de António Aleixo (1899-1949), cujos versos, por excepção, foram reunidos em volume (Quando começo a cantar, 1943, reeditado sob o título de Intencionais, 1945; Auto da Vida e da Morte, 1948, Este Livro que vos deixo..., 1969, 3.a edição, em dois volumes, 1990, Inéditos, 1978). Há uma antologia de Poetas Populares, em quatro volumes, organizada por Fernando Cardoso, 1978. João de Deus é uma combinação desta tradição oral e musicada e da literatura impressa.


In História da Literatura Portuguesa (DVD),
2002 Porto Editora