17/05/2009

Guerra Junqueiro




O mais célebre dos poetas combativos de então é Guerra Junqueiro (n. 1850-09-15 - f. 1923-07-07).

Nascido em Freixo de Espada à Cinta, de uma família abastada, Junqueiro viu os seus primeiros versos editados e elogiados aos 14 anos. O pai destinava-o à carreira eclesiástica, mas formou-se afinal em Direito ao tempo de João Penha, em cuja Folha colaborou. Nas poesias da fase estudantil já se revelam uma extrema facilidade improvisadora, a tendência para as antíteses e encarecimentos oratórios sobre temas da actualidade (derrota de Napoleão III, República em Espanha), e o gosto da grandiloquência pretensamente visionária. Completado o curso em 1873, trava contactos com os intelectuais do Cenáculo, principalmente Guilherme de Azevedo, com quem colabora na revista Lanterna Mágica, e na peça de teatro ligeiro já citada. Publica então A Morte de D. João (1874), com que pretende ridicularizar o dom-joanismo como forma de egoísmo e perversão social, anunciando logo uma futura sátira contra Jeová, que, em oposição a Cristo, personificaria a forma transcendentalista, inumana e farisaica da religião. O livro consagrou-o: combina uma alegoria reminiscente de Dante, a grandiloquência de Hugo e traços pretensamente baudelairianos de condenação da Cidade capitalista.
Fez a seguir uma carreira de burocrata e político, como secretário dos governos civis de Angra e Viana e, depois, como deputado. A Musa em Férias (1879), incorporando alguns poemas dispersos e sensivelmente influenciada por Chansons des rues et des bois, de Hugo, tinha a aparência de uma acalmia na sua combatividade ("...arrumei num canto a lata/com que fabrico os trovões"), embora os poemas de reconciliação com a prosaica vida burguesa alternem ainda com outros de moderado idealismo progressista. Em 1885, publica, no entanto, A Velhice do Padre Eterno, que preparava desde há vários anos dentro do plano anunciado, propondo-se completá-la por um poema épico sobre Prometeu Libertado (o libertador seria Cristo), que deixou afinal incompleto. A Velhice é uma colecção de poemas em que predomina a sátira anticlerical, contrapesada por uma religiosidade panteística e humanitária com influências bem reconhecíveis de Proudhon, Michelet e Hugo. A nebulosidade desta ideologia anticlerical permitia que, entretanto, prosseguisse até à crise política de 1890 a sua carreira de deputado monárquico, gravitando na órbita de Oliveira Martins e na do grupo de literatos e aristocratas dos Vencidos da Vida .
Com o Ultimato assiste-se, porém, à sua rotura com Martins e à passagem para as fileiras republicanas. Datam de 1891 Finis Patriae e Canção do Ódio, violentas sátiras à dinastia brigantina e à Inglaterra, das quais ainda é sequência Pátria (1894), poema já, no entanto, repassado de um patriotismo elegíaco a condizer com as tendências saudosistas do tempo. A sua retirada de então para as suas propriedades no Douro coincide com o princípio de uma evolução para uma pacífica religiosidade.
O estilo oratório volve-se para o sentimento de decadência nacional, para uma vaga piedade cristã com os humildes; e é, por outro lado, contrariado, neste coleccionador de bricabraque, por um gosto novo de variedade formal, que o simbolismo despertara. Eis os incentivos mais evidentes de Os Simples, de 1892. Mas o tom oratório retoma todo o seu predomínio para, na Oração do Pão (1902) e na Oração da Luz (1903), continuar o misticismo panteísta, caldear motivos bíblicos com certas pretensões científicas, sobretudo transformistas, servindo de ponte entre a temática anteriana e a dos saudosistas, que muito admiraram e imitaram este último poema. A República fê-lo regressar à política, chegando a representar diplomaticamente o novo regime em Berna. O seu ideário continua a caracterizar-se por uma grande imprecisão. A atitude de retracção e recolhimento caseiro domina os seus últimos tempos (Poesias Dispersas, 1920; Prosas Dispersas, 1921).

Vitoriado em vida como um dos maiores poetas portugueses, e até como o grande poeta contemporâneo da Península, severamente criticado sob os mais diversos pontos de vista no segundo quartel do século actual, o caso literário de Junqueiro constitui uma das pedras-de-toque para determinação dos preconceitos estéticos de duas épocas. As deficiências, as incoerências de construção, o demagogismo oratório de A Morte de D. João, e, secundariamente, de outros poemas já foram não apenas denunciados, mas até explicados pela génese dessas obras. A Velhice do Padre Eterno e A Morte de D. João correspondem, respectivamente, ao Crime do Padre Amaro e ao Primo Basílio no desenvolvimento de dois temas sociais já tratados nas Farpas e predilectos de outros poetas do tempo: o farisaísmo e o dom-joanismo. Mas, enquanto Eça soube representá-los com afinada perspicácia sociológica e psicológica, Junqueiro recorreu a símbolos cuja agressividade mascara uma visão muito inconsistente: o seu D. João nada sugere de vivo e imediato, não passa do velho herói byroniano, caricaturado de um ponto de vista pequeno-burguês, mas com o seu romantismo ainda mal virado do avesso; a Velhice, bastante melhor, reduz-se, em parte, à boutade antibíblica e à caricatura anticlerical.
Sob o aspecto rítmico e estilístico, os detractores de Junqueiro fizeram o inventário dos seus recursos versificatórios, indicando o abuso de alguns efeitos fáceis, sobretudo no alexandrino, visivelmente decalcado no de Hugo, que também é o seu principal mestre do "modo estridente e relampejante de chocar a antítese" (Eça) e da sua característica mistura de grandiloquência e prosaísmo. Certos defeitos da poesia huguesca reflectem-se, por vezes agravados, na poesia junqueiriana, nomeadamente a exploração exaustiva de analogias retóricas (por exemplo, entre o pensamento e o mar, entre as coisas religiosas e a grandiosidade cenográfica da natureza), o estirado tratamento alegórico ou a frequente personificação maiusculada de sentimentos e abstracções (por exemplo, a Consciência e o Remorso; a Lágrima; a Ideia, a Dor, o Crime, a Miséria, etc.). Por outra banda, as insistentes imagens da sordidez urbana e burguesa provieram do baudelairianismo mal entendido de Guilherme de Azevedo. Junqueiro não dignifica a sua galeria de espezinhados sociais com qualquer reacção dinâmica e consciente; tanto em Os Simples, livro onde constituem o assunto dominante, como nos volumes anteriores, as vítimas do dom-joanismo masculino, da violência e da exploração, as crianças desamparadas, os cavadores, os operários, os pobrezinhos, a moleirinha, etc., elevam-se em coros ou recortam-se isolados num ambiente de mera compaixão passiva, se não de pitoresco e de contemplação devaneante ou pretensamente mística. O simbolismo foi para Junqueiro um renovo do romantismo luarento, sentimental e cemiterial a envolver, quer os simples, quer as suas próprias saudades da infância.
Mas, apesar destas limitações hoje evidentes, Junqueiro não teria conseguido identificar-se com tão vastas camadas da pequena burguesia, não teria exercido uma influência tão considerável, mesmo para além da sua época, se não dispusesse de certos meios notáveis de expressão literária. Em primeiro lugar, o seu simplismo pensante relaciona-se com uma flagrante visualidade de imagens: Junqueiro não pensa com finura, porque vê logo as ideias e sentimentos em alegoria ou imagem. Certas sátiras são caricaturas comparáveis às de Bordalo Pinheiro ou de Leal da Câmara, que tão habilmente as ilustraram. Daí uma chusma de imagens impressivas, como a que reduz os acrobatas do circo a "grandes letras góticas"; comparações sugestivas, como a do obscurantismo ao "apagador de lata duma igreja" com que se pretendesse apagar o Sol; grandes quadros, em que os próprios lugares-comuns, certas noções vagas vulgarmente aceites sem qualquer reflexão, se tornam visíveis, numa espécie de mitificação do senso comum (como, na Velhice, o quadro da adulteração medieval do vinho eucarístico em Vinha do Senhor, visualização simplista mas impressiva da Idade Média; e na Pátria, a alegoria da história de Portugal, visionada pelo Doido). Por outro lado, a facilidade rítmica do verso junqueiriano colhe, nalguns poemas, certas tonalidades de emoção inapreensível para uma versificação menos espontânea; é o caso de O Regresso ao Lar, e de A Moleirinha, em Os Simples, dois poemas que perduram, e, na poesia panfletária, o caso de certas composições enérgicas de Finis Patriae, como Falam pocilgas de operários, falam condenados .


In História da Literatura Portuguesa (DVD),
2002 Porto Editora