09/05/2009

Cantiga de Escárnio e Cantiga de Maldizer






A Cantiga de Escárnio é aquela em que a sátira se constrói indirectamente, por meio da ironia e do sarcasmo, usando "palavras cobertas, que hajam dois entendimentos para lhe lo não entende rem", como reza a Poética Fragmentária que precede o Cancioneiro da Biblioteca Nacional (antigo Colocci-Brancuti).
Na Cantiga de Maldizer, a sátira é feita directamente, com agressividade, "mais descobertamente", com "palavras que querem dizer mal e não haverão outro entendimento senão aquele que querem dizer chãmente", como ensina a mesma Poética Fragmentária.

Essas duas formas de cantiga satírica, não raro escritas pelos mesmos trovadores que compunham poesia lírico-amorosa, expressavam, como é fácil depreender, o modo de sentir e de vi ver próprio de ambientes dissolutos, e acabaram por ser canções de vida boémia e escorraçada, aquela que encontrava nos meios frascários e tabernários seu lugar ideal. A linguagem em que eram vazadas admitia, por isso mesmo, expressões licenciosas ou de baixo-calão: poesia "forte", descambando para a pornografia ou o mau gosto, possui escasso valor estético, mas em contrapartida documenta os meios populares do tempo, na sua linguagem e nos seus costumes, com uma flagrância de reportagem viva.

Visto constituir um tipo de poesia cultivado notadamente por jograis de má vida, era natural propiciasse e estimulasse o acompanhamento de soldadeiras (= mulheres a soldo), cantadeiras e bailadeiras, cuja vida airada e dissoluta fazia coro com as chulices que iam nas letras das canções.


Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa
Editora Cultrix, São Paulo