23/12/2008

Século XX: Um Século de Artes, Letras, Ideias e Realizações

O século XX inaugurou uma nova era de desenvolvimento científico e tecnológico, e uma nova fase política com a implantação de sistemas democráticos em muitos países do globo. Mas, apesar da introdução deste inovador sistema político, para além da adopção de programas educativos e de reformas sociais, este século viu nascer e crescer o imperialismo, regimes fascistas e a corrida ao armamento.
No início do século XX, a Europa vivia num clima de paz, que proporcionava um ambiente confiante e racionalista, contudo esta conjuntura mudou radicalmente com o ressurgimento de crises económicas e depressões. Apesar do triunfo da democracia e da revolução intelectual e artística operada neste século, no período compreendido entre as duas guerras mundiais desenvolveram-se formas autoritárias de poder, como por exemplo o nazismo germânico. A Europa entrou então num clima de pessimismo generalizado.
Os pilares da civilização ocidental, assentes no humanismo e nos princípios cristãos, foram profundamente abalados por estes regimes autoritários, pela hostilidade dos estados socialistas contra o poder da burguesia e pelo movimento de descristianização emergente entre as elites e a pequena e média burguesia.
Assim a mentalidade positivista do início do século deu lugar a um clima de incerteza e de instabilidade, provocado pelo estalar da Primeira Guerra Mundial, que trouxe a ruptura dos valores tradicionais e transformou o racionalismo em pessimismo.
O desenvolvimento acelerado das cidades quebrou o equilíbrio mantido entre os meios urbanos e os meios rurais e alterou inclusivamente as formas de sociabilidade dentro das cidades. A vida urbana, com a introdução da sociedade de massas, passou a privilegiar o individualismo, perdendo-se práticas de solidariedade ancestrais.
A sociedade começava a mudar. As classes médias ganhavam poder numa sociedade massificada, onde as mulheres lutavam por direitos cívicos.
As novas descobertas da ciência vieram abalar velhas certezas e abriram caminho à ciência moderna. Einstein, uma das figuras mais proeminentes do século, pôs em causa as teorias positivistas com a sua teoria da relatividade, arrastando consigo teorias ligadas ao indeterminismo. Outra das descobertas científicas importantes foi a Psicanálise, um campo da psicologia explorado por Sigmund Freud (1856-1939) e pelos seus discípulos Jung e Adler.
Na primeira metade do século XX a cultura ocidental atravessou uma fase muito inovadora em campos tão distintos como o da música, das artes plásticas, da arquitectura e da literatura. Esta mudança teve a ver com as inovações formais e uma grande diversidade de propostas vanguardistas que tiveram eco na arte e na literatura. Algumas destas experiências foram: o Cubismo, um estilo nascido em França no início do século XX, ligado à figura de Pablo Picasso, um dos artistas plásticos mais simbólicos e influentes de todo o século, que foi, por sua vez, influenciado por Braque e Cézanne; o termo fauvismo provém da palavra "Fauves", que significa feras e expressa um movimento artístico surgido no Salão de Paris de 1905 desenvolvido por Matisse e Vlaminck, entre outros; o Abstraccionismo de Kandinsky, Mondrian e Vieira da Silva; o Futurismo do italiano Marinetti; o Expressionismo desenvolvido pela escola "Die Brucke" (A Ponte); o Surrealismo, uma forma artística associada a Salvador Dalí, Miró e Marx Ernst; e o Dadaísmo, de Picabia, entre outros.
Portugal também acompanhou as correntes artísticas em voga no início do século. Na pintura destacaram-se, entre outros: Santa-Rita Pintor, um artista influenciado pela escola futurista, Amadeu de Sousa-Cardoso, de Amarante, e Almada Negreiros, Viera da Silva e António Pedro. Na escultura, as figuras que se mais destacaram foram Diogo de Macedo, Francisco Franco, Leopoldo de Almeida, Barata Feyo e Álvaro de Brée. Na arquitectura distinguiu-se o nome de Raul Lino, que estudou a Casa Portuguesa; mas também Carlos Ramos, Cotinelli Telmo, Pardal Monteiro, Keil do Amaral, entre outros. Na literatura Ferreira de Castro, José Régio, Miguel Torga e o poeta dos heterónimos e da "Mensagem" Fernando Pessoa.
Na transição do século XIX para o século XX a literatura era dominada pela corrente realista, que se prolongou no século XX com o realismo social, designado neo-realismo. A literatura reflectia as preocupações e o pessimismo de alguns autores como Aldous Huxley, André Gide, Marcel Proust, James Joyce e Ernest Hemingway.
Depois da Segunda Guerra Mundial, Jean-Paul Sartre e o seu Existencialismo influenciou autores como Albert Camus, o autor de obras como o "Mito de Sísifo" e o "Estrangeiro". Uma nova geração de escritores passou então a interessar-se pela psicologia e a vida interior, como é o caso por exemplo de Samuel Beckett. Na Alemanha, a literatura exprimia os problemas sociais e no teatro a corrente do pós-guerra era representada por Bertolt Brecht.
Na arquitectura do período logo após a Primeira Guerra Mundial surgem soluções inovadoras para os problemas urbanísticos, que exigem a reestruturação das cidades, segundo critérios mais funcionalistas. A arquitectura passa a adaptar os edifícios às suas finalidades funcionais (Funcionalismo). Na Europa, Le Corbusier (1887-1965) funda a escola do Racionalismo Formal em França; Walter Gropius (1883-1969), na Alemanha, seguindo uma arquitectura racionalista metodológica, funda a Escola da Bauhaus.
Nos Estados Unidos da América o arquitecto Frank Lloyd Wright (1869-1959) traz a corrente do funcionalismo orgânico, sintetizada, nomeadamente, na Casa da Cascata e na Robbie House, duas das suas obras mais emblemáticas.
Ao mesmo tempo estava em pleno desenvolvimento o desenho industrial, ou design, que aliava a arte à tecnologia, permitindo a produção em série de artefactos funcionais que respondem a critérios estéticos e práticos.
Entre as duas guerras a escola de Paris (1920-1949) continuou a predominar no panorama artístico, mas foi perdendo o seu domínio para outros centros. Esta escola foi a última conjugação de artistas e movimentos em torno da capital francesa. A partir de então a arte é caracterizada pela dispersão geográfica e pela perda da influência europeia face a países como os Estados Unidos.
As novas correntes da pintura são muito variadas: vão desde a Op Art (Optical Art) à Action Painting, passando pelo Grupo Cobra (1948-1951), pela Pop Art de Andy Warhol, ligada à cultura de massas, pela Minimal Art, a arte conceptual, a arte Pobre e a Land Art.
A escultura contemporânea provém de uma velha tradição académica que, mais do que a pintura, sente a procura do respeito dos clássicos e as suas considerações sobre a representação corporal e sobre a temática alegórica. Os escultores não académicos do século XX pretendem dar ênfase aos materiais, recorrendo à simplificação da figura humana estilizada, ou criando representações inventadas, produzindo uma arte próxima da arquitectura. Alguns dos expoentes máximos da escultura contemporânea são Alberto Giacometti, Constantin Brancusi e Henry Moore.
A fotografia, a inovadora arte de captar imagens, nasceu dos avanços tecnológicos desenvolvidos a partir de finais do século XIX. A par da fotografia, uma forma de fixar imagens paradas, surgiu o cinema, uma arte que, associada à música, produz imagens em movimento. Estas duas inovações vieram alterar por completo o mundo e o sentir da arte contemporânea.
A fotografia apareceu em França no início do século XIX pelas mãos de Niépce, um burguês culto e abastado. Os primeiros registos são imagens fugazes, mas entre estas primeiras experiências e as imagens mais duradouras não demorou muito tempo. A fotografia triunfou, de imediato, em Paris, e rapidamente chegou aos Estados Unidos, que a desenvolveram enormemente. A fotografia artística foi impulsionada pelo fotógrafo Félix T. Nadar, que imortalizou Sarah Bernhardt nos começos da segunda metade do século XIX (1864-1865).
Em meados do século XX, o ensino tornou-se obrigatório e gratuito em muitos países, pois representava uma forma de incutir valores e uma nova disciplina, através da escola, numa altura em que os meios de comunicação social (mass media) eram veículos de uma cultura de massas, transmissores de modelos de vida e de ideologias. A televisão, a rádio, a imprensa escrita e o cinema atingiam todo o tipo de pessoas, transmitindo a todas as classes sociais modelos comportamentais estandardizados. A difusão da imprensa teve início no final do século XIX, contudo, com a alfabetização e a melhoria das condições de vida, o seu alcance e o seu poder aumentaram consideravelmente.
A invenção da televisão tomou parte do impacto da rádio, mas não a sua importância. Pelo menos nos primeiros tempos. O cinema desenvolveu-se a partir da década de 20, e desde logo se afirmou como um poderoso meio de comunicação e de difusão de modelos sociais e culturais.
Esta nova cultura de massas também se abriu a outras formas criativas, como a banda desenhada, criadora de figuras mundialmente conhecidas e apreciadas como Astérix e Tintim, e a literatura policial, um género literário adaptado com frequência à televisão e ao cinema.