21/10/2008

Batalha do Salado



Anónimo


(Do Terceiro livro de Linhagens: Batalha travada entre Cristãos e Mouros, em 30 de Outubro de 1340, junto da ribeira do Salado, na província de Cádis, no sul de Espanha)


Os reis cristãos houverom seu acordo que fossem partidos em duas partes: el-rei de Cas-tela pela riba do mar, el-rei de Portugal per antre as montanhas e o campo. E ordinharom e defenderom que nenhuns nom se apartassem a pelejar, nem jogassem gineta, e que todos fossem ferir nas maiores azes a mantenente.
Os reis partirom-se ali; e um foi a destro e o outro a sestro. E el-rei Dom Afonso de portugal era de grandes feitos e, quanto mais olhava pelos Mouros, tanto lhi mais e mais crecia e esforçava o coraçom, como homem que era de grandes dias e tinha que Deus lhi fezera grã mercê em o chegar àquele tempo u podia fazer emenda de seus pecados por salvaçom de sa alma e receber morte por Jesus Cristo. Ele de todo bom contenente falou ali com os seus e disse-lhes assi:
- Meus naturais e meus vassalos, sabedes bem em como esta terra da Espanha foi perduda por rei Rodrigo e ganhada pelos Mouros e em como outra vez entrou Almançor e em como os vossos avós donde descendedes, por grão seu trabalho e por mortes e lazeiras, ganharom o reino de Portugal; em como el-rei dom Afonso Anrequiz, com que a eles ganharom, lhis deu honras e coutos e liberdades e contias, por que vivessem honrados, e nom tanto solamente fez esto a eles, mais por a sua honra dava os maravedis aos filhos que jaziam nos berços e os padres serviam por eles, em como os reis que depós ele vieram aguardarom esto. Eu, depois que vim a este logo, fiz aquele que estes reis fezerom e, se alguma cousa i há pera emendar, eu o corregerei, se me Deus daqui tira. Olhade por estes Mouros que vos querem ganhar a Espanha, de que dizem que estão forçados, e hoje este dia a entendem de cobrar, se nós nom formos vencedores. Poede em vossos corações de usardes do que usarom aqueles donde vindes, como nom percades vossas mulheres nem vossos filhos, e o em que hão de viver aqueles que depois vós vierem; os que i morrerem e viverem serão salvos e nomeados pera sempre.
Os fidalgos portugueses lhi responderom:
- Senhor, os que aqui estão hoje este dia vos farão vencer ou i todos prenderemos morte.
El-rei foi desto mui ledo. Disse a Dom Álvaro Gonçalves de Pereira, priol da Ordem da Cavalaria de São João, no reino de Portugal, que fezesse mostrar a vera Cruz do Marme-lar, que lhi ele mandara trager. E o priol dom Álvaro de Pereira mandou vestir um crérigo de missa em vestimentas alvas e a vera Cruz em uma hasta grande, que a pudessem ver de todas as partes, e fez o crérigo cavalgar em um mu muito alvo, e trouxe a vera Cruz ante el-rei.
E disse-lhi o priol dom Álvaro:
- Senhor, vedes aqui a vera Cruz. Orade-a e poede em ela fiúza e pedide-lhi que Aquele que prendeu morte e paixom em ela, por vos salvar, que vos faça vencedor destes que som contra a sua fé. E nom dultedes que, pela sua vertude e por os bons fidalgos vossos naturais que aqui tendes, havedes de vencer estas lides e vós havedes de vencer primei-ro.
El-rei e aqueles que com ele estavam forom mui ledos e esforçados destas palavras do priol dom Álvaro e disserom:
- Assi o cumpra Jesu Cristo.
E fezerom sua oraçom à vera Cruz muito humildosamente.
Alcarac, o turco, viu como se partiam os Cristãos; mandou dizer a Ali Albofacem que os Cristãos eram partidos em duas partes e a uma queria entrar pela costa das montanhas, pera darem na saga; e que este saber, que os Cristãos faziam, que bem cuidava ordinhar que fosse a seu dano deles. E que ele fezesse sa lide como os que iam pela riba do mar, ca ele em pequena hora venceria aqueles cristãos e seriam logo com ele a ferir na saga daqueles que com ele lidassem.
Mandou Alcarac reis e infantes e outros altos homens acometer os Cristãos com ametade dos XXXII mogotes dos ginetes e arqueiros, mui rijamente, os uns na dianteira e os outros pelas costaneiras e os outros na saga.
Ali se volveu a lide dos reis cristãos e dos mouros mui danosa e mui crua e sem piedade.
Os Mouros eram muito esforçados e feridores de todas partes: aos uns davam azagaia-das, ãos outros de lançadas ea mantenente e aos outros a espadadas e aos outros de frechadas de arcos turquis, que eram tão espessas que tolhiam o sol. Ali caíam cavaleiros e cavalos mortos, de uma e da outra parte; ali /veríades/ cavalos sem senhores andar soltos e os cavaleiros que eram em terra filhavam-se pelos lazes das capelinas e dos bacinetes e davam-se das brochas que as poinham da outra parte.
Os Portugueses andavam per a lide ferindo e derribando e diziam uns contra outros:
- Senhores, este é o nosso dia em que havemos de escrarecer e este é o dia da vitória e da honra dos fidalgos. Este é o dia da salvaçom de nossas mulheres e filhos e daqueles que de nós descenderem. E este é o dia em que havemos semelhar nossos avós, que ganharom a Espanha. Este é o dia da salvaçom das nossas almas; nom se perca hoje per nossa fraqueza: firamo-los de toda crueldade.
O esforço era mui grande em eles e faziam tão bem e tão igual que todo homem que os visse sofrer e ferir e matar em seus enmigos que os nom louvasse de todo prez e honra de cavalaria.
Os Mouros nom se lhis olvidava aquelo por que ali vieram, ca eles refrescavam cada vez dos mogotes que estavam folgados e feriam os Portugueses a destro e a sestro, assi que o afincamento era tamanho de todas partes que homem nom poderia mostrar. Os Portu-gueses forom ferir nas IIII azes dobradas, assi como lhis fora mandado pelos reis. Esto lhis foi grave de fazer pelo afincamento grande dos mogotes.
Ali se renovou a lide mui dorida de crueza e de sanha; ali se esmalhavam fortes lorigas e britavam e especeavam e talhavam escudos, capilinas, bacinetes, per os grandes e duros golpes que se davam. As chagas eram muitas, de que se vertia muita sangue.
Os Portugueses assi forom aguentando e sofrendo sa batalha em tal pressa e coita, como ouvides, mais todo seu trabalho nom lhis valia nada, porque, u tinham maltreitos, os Mouros refrescavam cada vez dos que estavam folgados. Aquela hora foi irada de coita e de pressa aos que estavam em tal batalha, ca a sa coita, dos Cristãos, era tão grande com o grão trabalho que haviam, que homem nom o poderia contar. Com toda esta pres-sa, seu feito deles era haverem mãos e língua, esforçando-se uns a outros, dizendo:
- Senhores, nembrade-vos como Jesu Cristo recebeu morte por nos salvar; esto devemos nós fazer por Ele: todos prender morte hoje este dia por salvar a sa fé. E os que morre-remos hoje seremos com Ele no seu reino celestial, u há moradas tão nobres que se nom podem dizer por línguas. Os que daqui sairmos seremos louvados de honra, de vitória, de prez, de bondade de toda a cristandade, que estão em grã coita e tormenta, com muitas lágrimas por sas faces, esperando que por nós e por os nobles cavaleiros de Castela serão hoje salvos.
Estando em este afincamento qual ouvides, os nembros com que haviam de ferir lhis enfraqueciam, assi que os nom podiam reger senom mui gravemente. As vozes deles eram baixas e tão mudadas que se nom entendiam uns a outros, como aqueles que começaram a lide a hora de prima e estavam passante meio-dia.
Os Mouros refrescavam-se cada vez mais e mais dos que estavam folgados. E os gritos deles e das trombas e anafis e de altâncaros e atavaques e gaitas assi reteniam que parecia que as montanhas se arreigavam de todas partes. Esta hora foi aos Cristãos de escuridõe, de amargura, de gimidos.


Ferreira, Maria Ema Tarracha,
Poesia e prosa medievais,
Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses,
1988, pp. 150-153