20/07/2008

Idade média - As distracções em dias de paz



Ainda nos tempos de hoje, o tipo de divertimentos, sua intensidade e frequência se acham fortemente condicionados pelo nível social e pelas possibilidades materiais. Na Idade Média, essa relação era ainda mais estreita. Próprias da nobreza se mostravam a grande maioria das distracções tipicamente medievais, como os torneios ou os saraus onde se trovava e cantava. O povo possuía também formas de folgança e de esquecimento da labuta quotidiana; mas eram em menor número e menos requintadas. Ponhamos de parte, nem que seja em teoria, o clero: estavam-lhe interditas ocupações mundanas que o afastassem dos deveres para com Deus. Na prática, o alto clero aderia aos divertimentos da nobreza, como o baixo clero participava dos do povo. Havia é certo formas de distracção tipicamente eclesiásticas, como os «mistérios» religiosos e o canto de igreja, onde aliás os fiéis tomavam também parte activa.
A nobreza tinha muito tempo livre. Falando com propriedade, tinha até todo o seu tempo livre. Nobreza e ocupações remuneradas excluíam-se. A função do nobre estava, não em trabalhar, mas em defender pelas armas. A sociedade nobre constituía assim um corpo de oficiais sempre atento à defesa colectiva, que era aliás a dos seus próprios interesses. Fazia-o com galhardia, quando necessário. Mas exorbitava das suas funções, atacando muitas vezes e procurando a guerra apenas pelo prazer do combate. Toda a actividade da nobreza, em tempo de paz, devia consistir no exercício das armas e na conservação da robustez do corpo. Era assim, pelo menos, que teóricos como D. Duarte justificavam e recomendavam a prática de certos actos aparentemente de ócio e de prazer. O «desporto» medieval surge com o objectivo de treino para a guerra. Nestes termos, haver-se-ia por absurda, a não ser em casos excepcionais, a participação de vilãos.
A repartição social dos divertimentos conhecia, no entanto, excepções. Alguns eram pelo menos observáveis pela totalidade: por exemplo as touradas, os momos e até as justas e torneios. Outros, embora observados por nobres e populares, excluíam a participação de ambos: assim as festas judaicas e os folguedos mouriscos. Noutros, finalmente, admitiam-se todos os membros da sociedade medieval: era o caso das romarias, das procissões, das aclamações e de certos banquetes oferecidos pelo rei em momentos de grande alegria.
Entre as actividades mais queridas da nobreza e do clero, e com mais frequência praticadas, contava-se a caça. [...] Desporto aparentado era a arte de cavalgar. [...]



Uma vez a cavalo, o nobre medieval podia entregar-se a uma série de exercícios desportivos, todos eles mais ou menos violentos. Desses, os mais vistosos e conhecidos eram sem dúvida as justas e os torneios.
A nobreza não se divertia apenas cavalgando, jogando à espada ou exercitando-se noutros desportos violentos. Nem muitas vezes o tempo o permitia. Dentro de casa, nos serões de Inverno ou quando fora chovia e trovejava, o rei, o senhor, vassalos e famílias precisavam de entreter o tempo de qualquer forma. Aliás, as transformações sociais, do século XI ao século XV, foram no sentido de uma preferência cada vez maior pelas distracções «pacíficas», pouco belicosas, onde a mulher podia participar e onde a aproximação entre os dois sexos se acentuava. [...]
Do século XII ao século XIV, os trovadores e os jograis desempenharam papel de relevo no âmbito dos divertimentos da nobreza. O assunto é por de mais conhecido e foi já amplamente tratado por historiadores e por literatos. Sabe-se que o trovador era em regra um nobre que compunha o poema e, às vezes, a música para ele, que jograis e soldadeiras tocavam e cantavam. Na corte portuguesa, trovadores e jograis avultavam desde os meados do século XIII, florescendo durante cerca de cem anos e deixando a tradição da sua presença durante a centúria de Quatrocentos.
Chamamos hoje «jograis» a todos esses músicos, ou saltimbancos, ou poetas populares, ou actores, porque tudo eram um pouco, que andavam de terra em terra, à maneira dos circos ambulantes, detendo-se sempre quê havia público para os aplaudir e remunerar, preferindo naturalmente as residências dos grandes senhores ou os conventos abastados.
[...] Na corte do rei, e certamente nos solares mais importantes, fixavam-se sempre alguns jograis, tornados sedentários pela promessa de residência e nutrição gratuitas e de emprego seguro. Deles saíram muitas vezes os bobos, mais famosos na lenda e na tradição do que documentados pela história. Em 1258 estabelecia-se em três o número de jograis fixos na corte de D. Afonso III. Proibia-se a fixação de soldadeiras por períodos superiores a três dias. Medidas como esta não devem ter sortido efeito e as leis posteriores omitem por completo a referência a jograis e a soldadeiras.
As «trovas» mais numerosas cantavam o amor, em suas formas variadas. Antepassadas longínquas das «revistas» de nossos dias eram as cantigas de escárnio e maldizer, que satirizavam acontecimentos, costumes e pessoas, em coplas vivas e mordazes, por vezes obscenas. É de supor que uma e outras fossem cantadas somente perante o rei, a corte ou as audiências fidalgas da província.
[...] Também eram frequentes os espectáculos de danças populares, ante requintadas assis-tências palacianas. Contratavam--se vilãos que cantavam e bailavam suas modinhas tradi-cionais defronte do rei, de grandes senhores ou de convidados ilustres.
Apreciavam-se muito as danças típicas de judeus e de mouros. Quando casou o príncipe D. Afonso, filho de D. João II, mandou o rei «que de tôdalas mourarias do Reino viessem às festas tôdolos mouros e mouras que soubessem bailar, tanger, cantar [...]. Foi ordenado e cumprido que dos lugares mais acerca (de Évora) viessem às ditas partes moças formosas que soubessem bem bailar e cantar, que vieram com mancebos foliães vestidos de suas invenções». Também o alemão Rosmital, visitando o País em 1466, nos fala «de que maneira os pagãos sarracenos fazem as suas festas».
Todos os festejos populares se faziam à base de música e de dança. Bailava-se em roda, cantava-se, batia-se com as mãos e com os pés. A dança informava boa parte das cantigas de amigo dos séculos XIII e XIV:

«Bailemos nós já todas três, ai amigas
Sob aquestas avelaneiras floridas.»

Havia danças só para mulheres e havia danças em que tomavam parte os dois sexos. Havê-las-ia também só para homens? Algumas cantigas falam de danças nos terreiros das igrejas, que se desenrolavam entre a juventude enquanto as mães rezavam no templo. Cantando e bailando se animavam as feiras e as romarias e se interrompiam os trabalhos campestres. Coros masculinos, em motivo único ou acompanhando um solo, haviam de se escutar por toda a província, suavizando a dureza dos mesteres, espraiando-se pelas searas, pelas debulhas e pelos pomares. Às vezes eram os próprios cânticos de igreja que o povo aproveitava para trovas laicas.
[...] A descrição das múltiplas festas de raiz popular não acabaria mais. Festejavam-se, não somente os fastos do catolicismo, como também os do paganismo com cor de cerimónia cristã e até usos pagãos puros. Era o caso das Janeiras e das Maias, que várias vezes se procuraram reprimir sem resultado. As mais importantes festas cristãs, conhecidas em todo o País, eram as do Natal, da Páscoa, de S. João Baptista, do Corpo de Deus e de Todos os Santos. Judeus e mouros tinham igualmente os seus festejos próprios.
Não variavam muito dos de hoje os divertimentos costumados em tais festividades. Cerimónias religiosas (especialmente procissões), mercado ou feira, repicar de sinos, baile e cantoria, refeições colectivas, emprestavam o colorido típico habitual.


A. H. de Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa