20/10/2007

Breve análise de poema


Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.



A princípio, é importante e claro observar algumas diferenças primordiais na estrutura plana, tanto objectiva como subjectiva, internas e externas ao discurso da Épica e Lírica Camoniana no intuito de, a partir de tais premissas, calcar a análise a seguir destacando um aspecto de grande relevância na composição do soneto em questão. Portanto, num primeiro momento, pretende-se evidenciar apenas tais diferenças, indispensáveis à explanação analítica posterior;

Enquanto Camões Épico acata todo o ideal harmónico do equilíbrio renascentista, tanto em forma quanto em conteúdo, retratando e exaltando a estabilidade, a mesura, o Amor incorruptível e o autocontrole heróico na aspiração da universalidade, da sublimação e na busca da plenitude, a Lírica Camoniana dá vazão ao caos interno do "eu-lírico", caracteriza o inefável, foge ao universal e tende ao particular. No entanto, de maneira singular, com propriedade sob o parâmetro clássico renascentista harmónico, ao cair na retórica assimétrica discursiva do desconcerto pessoal, o autor utiliza-se de elementos formais simétricos na estrutura poética e garante, desta maneira, a profundidade lógica do empírico amalgamada na formulação tanto quanto lógica e plausível do teórico.

Feita a breve apreciação acima e tomando como ponto crucial a temática do contraditório e incontrolável expressada em forma harmónica e equilibrada, parte-se então à análise particular de "Busque Amor novas artes, novo engenho...". Para tanto, Forma e Conteúdo serão vislumbrados e discutidos, de modo a fazer-se clara a distinção e a interacção estrutural e discursiva do soneto em sua totalidade;

Sob os moldes da tradição Petrarquista, o soneto em anexo estabelece, mais uma vez, sua função retórica, mesmo dialéctica, na exposição argumentativa. Constituído de dois quartetos e dois tercetos compostos por decassílabos heróicos, recorrências de aliteração específica em alguns versos, tónicas nas sextas e décimas sílabas, esquema de rimas abba/ abba/ cde/ cde, obedecendo ao modelo clássico, sua composição permite a ambientação da divisão temática e a construção de uma unidade sonora rica, a qual, ao passo que actua na familiarização de uma estrofe à outra, actua também no sentido de promover a ilustração estrutural do discurso, relacionando poeticamente proposições e argumentos. A adopção do soneto ainda é justificada tendo em vista a familiaridade de sua marcha sonora ao silogismo, explícito na primeira e terceira estrofe, notado no esquema seguinte;

Proposição 1ª estrofe:
- As artes e o engenho do Amor não tirarão a esperança do eu lírico.

Argumentação 1ª estrofe:
- O Amor não pode tirar a esperança de onde ela não existe. O eu lírico não tem esperança.

Proposição 3ª estrofe:
- Eu lírico não sofrerá desgosto.

Argumentação 3ª estrofe:
- Aonde falta esperança, não há desgosto. O eu lírico não tem esperança.

Enquanto primeira e terceira estrofes tematizam a questão por meio de silogismos, o segundo quarteto e terceto o fazem através de torneios discursivos, utilizando a retórica composta por imagens, paradoxos, sínquise, que em associação à sonoridade e repetição de palavras, têm a função de acentuar a dúvida sobre o inconceituável sentimento de amar.

Exemplo:

Verso 6 - tudo o que circunda a questão é paradoxal: "perigosas seguranças"
Versos 7 e 8 - não teme o Amor pois que está já completamente perdido: "Andando em bravo mar, perdido o lenho"
Versos 13 e 14 - ressalta a dúvida e a total falta de controle frente ao sentimento indefinível: "Um não sei quê (...) dói não sei por quê."

Tendo em vista a forma de tratamento dada pelo poeta à análise de questões individuais e intimistas, optando pela abordagem racional, dialéctica, trifásica e silogística, torna-se óbvia a razão pela qual Camões é inserido num movimento transitório maneirista. Ao mesmo tempo que há a superação, adequação e transcendência da retórica linear renascentista, o poeta é capaz de extrair da desproporção argumentos lógicos. Cai na retórica do desconcerto e, de certa maneira, prenuncia o que há por vir, o Barroco. "Busque Amor novas artes, novo engenho" ilustra e justifica a sublimação camoniana.

Moisés, M., A literatura portuguesa através dos textos, São Paulo: Cultrix, pp. 70.