07/10/2007

Breve análise de poema


Há um tom permanente de dor na poesia camoniana. Vejamos este vilancete:


Mote Alheio

A dor que a minh' alma sente
não na sabe toda a gente.

Voltas

Que estranho caso de amor,
que desejado tormento,
que venho a ser avarento
das dores de minha dor!
Por me não tratar pior,
se se sabe ou se se sente,
não na digo a toda a gente.

Minha dor e causa dela
de ninguém ouso fiar,
que seria aventurar
a perder-me ou a perdê-la.
E pois só com padecê-la
a minha alma está contente,
não quero que a saiba a gente.

Ande no peito escondida,
dentro n'alma sepultada;
de mim só seja chorada,
de ninguém seja sentida.
Ou me mate ou me dê vida,
ou viva triste ou contente,
não ma saiba toda a gente.


O sofrimento, ao contrário da felicidade, apresenta-se como único e intransferível. O eu lírico afirma não querer dividir sua dor com ninguém. O substantivo "tormento", no segundo verso da primeira septina, quando qualificado pelo adjectivo "desejado", revela um certo masoquismo, um prazer na dor. O motivo surge nos versos finais dessa mesma estrofe: a revelação aos outros de tal sofrimento faria com que ele se tornasse ainda pior. Nas duas estrofes seguintes, também é revelado o medo do eu lírico em ver-se privado de tal sofrimento se confiar em alguém. Além da oposição dos termos semanticamente contrários tormento vs desejado, encontramos outra oposição na segunda estrofe: padecer vs estar contente.

Camões, ao trabalhar com oposição de ideias e sentimentos, prenuncia a ideologia barroca. O prazer pelo sofrimento é uma característica do Barroco. Nele, na verdade, os opostos atraem-se.