05/07/2008

Análise de «Amor de Perdição»



a) Acção.

Domingos Botelho abandona Vila Real e vai fixar residência em Viseu, para onde fora nomeado correge-dor. Leva consigo mulher e filhos. Dois deles, Manuel e Simão, estudam em Coimbra.

Num palacete, separado de sua casa apenas por estreita viela, vive Tadeu de Albuquerque com sua filha Teresa, encantadora menina de 15 anos. O corregedor e o fidalgo, por questões de tribunal, odeiam-se ferozmente e proíbem os respectivos filhos de falarem uns com os outros.

Simão, filho mais novo do corregedor, é um estudante boémio e de ideias progressistas. Depois de uma reclusão de meses no cárcere académico, em Coimbra, vem passar o resto do ano lectivo na casa paterna. Vê Teresa e apaixona-se por ela. Sabendo que os pais de ambos se opõem ao casamento, resolve mudar de vida, estudar e formar-se para ter dinheiro e poder constituir um lar, sem depender dos progenitores.

Tadeu de Albuquerque, a par dos amores da filha, deseja a todo o transe consorciá-la com o primo de Castro d'Aire, Baltasar Coutinho. Teresa resiste tenazmente e coloca Simão ao correr de tudo. Este abandonou Coimbra e, para se encontrar com ela livre de suspeitas, hospeda-se na casa do ferrador João da Cruz.

De acordo com Teresa, Simão abeira-se, duas noites, do palacete onde ela mora, para lhe falar.

Baltasar descobre estas visitas nocturnas e faz uma espera a Simão. Simão, que se fazia acompanhar de João da Cruz e do almocreve, é ferido por dois criados do fidalgo de Castro d'Aire, que pagam com a vida o atrevimento.

O estudante convalesce em casa do João da Cruz, assistido por Mariana, filha do ferrador, que se apaixona por ele, sabendo-o muito embora perdido de amores pela outra.

Teresa, entretanto é encerrada num convento da cidade. Corresponde-se com Simão e diz-lhe que a vão afastar dali, internando-a no convento de Monchique, no Porto, e que fará a viagem acompanhada do primo Baltasar e irmãs. Simão fica desesperado com esta particularidade. Na hora da partida, aproxima-se do grupo. Trava-se de razões com Baltasar e mata-o com um tiro.

Teresa, abaladíssima por tudo o que acabara de acontecer, seguiu para Monchique. Simão foi encarcerado e Mariana, aflita, não o desampara; é o seu anjo bom no cárcere. Não obstante, Simão só vê no mundo uma mulher — Teresa. E Teresa, a definhar no convento, não pensa em outra coisa que não seja o amor de Simão.

E quase três anos se passaram com os dois amorosos detrás das grades: a filha de Tadeu de Albu-querque, por nada a prender ao mundo, e o filho do corregedor, aguardando sentença definitiva.

Simão é finalmente degredado para a índia e Mariana, já sem pai, não quer separar-se dele. Entram ambos no navio em frente de Miragaia. Num mirante do convento, está um vulto a acenar. É Teresa que se despede. Simão não retira os olhos dela. Mas, de repente, o vulto dela some-se.

O comandante do navio, que veio mais tarde a terra, comunicou a morte da filha de Tadeu de Albu-querque àquele que tanto a amava. Simão não parou de chorar e não resistiu a tamanha dor. Dias depois, perto de Gibraltar, lançaram-no ao mar, envolto num sudário. Mariana, como uma estátua de sofrimento, está junto da amurada. Ao mesmo tempo que o cadáver de Simão mergulha nas águas, abraçada nele vai também para o fundo uma mulher, que se atirara do navio. Ë Mariana. Um avental ficou a boiar e junto dele um maço de papéis: eram as cartas de Teresa e Simão.

A acção que acabamos de resumir tem como antecedentes o ódio que o romance denuncia, e o amor: o ódio entre as famílias Botelho e Albuquerque e o amor entre Simão e Teresa. O seu desenvolvimento resumiu-o Camilo nesta frase da Introdução, alusiva ao -protagonista principal: «amou, perdeu-se e morreu amando». Simão amou Teresa com loucura; assassinou Baltasar Coutinho, que se intrometera entre os dois apaixonados; morreu de amor a caminho do degredo.

Nesta fábula vislumbram-se todas as características clássicas da tragédia: poucas personagens a agir, acção interior intensa expressa sobretudo nas cartas trocadas entre os dois amorosos, uma certa fatalidade a predispor para a desgraça a Simão (que até fora baptizado em perigo de vida), um desafio dos filhos aos pais desavindos (hibris), o sofrimento dos protagonistas a crescer gradualmente (clímax), o autor com seus comentários a fazer de coro.

Ao lado da acção principal descobrem-se duas curtas acções marginais: o bosquejo histórico da família Botelho (cap. 1.°) e os amores adúlteros de Manuel e da açoreana (cap. 16).

b) Personagens.

As personagens de Amor de Perdição não diferem muito das criadas por Camilo noutros romances. Caracteriza-as o amor e a violência. A violência justificam-na com a defesa daquilo que supõem ser a honra ferida.

No triângulo amoroso Simão-Teresa-Mariana, os dois primeiros comparsas são de tipo vulgar, convencional. Teresa é o tipo normal de menina romântica da época, sensível, amorosa, frágil. Não tem outras possibilidades na vida senão escolher entre amar e morrer, pois não sabe fazer mais nada. Simão é já uma personagem mais prosaica e, por isso, bastante mais humana. Loucamente apaixonado a princípio, o tempo que passou na cadeia arrefeceu-lhe o entusiasmo amoroso. Quando lhe deram a escolher entre dez anos de prisão em Vila Real, onde poderia ser visitado por Teresa, e o degredo ao ar livre na índia, embora sem oportunidades de a ver, não hesitou: preferiu o ar livre longínquo à reclusão junto da amada (cfr. caps. 18 e 19).

Mariana é uma personagem diferente, rara. Determina-se no decorrer da obra para direcções talvez não previstas pelo autor, dedicando-se a um homem que sabia muito bem estar louco por outra, num amor-vassalagem aparentemente assexuado. Espécie de confidente e moderadora de impulsos passionais da fábula trágica que em Amor de Perdição se vislumbra, dá-se ares de mulher-forte. Dona de casa muito cedo, Mariana começou por ser para Simão uma espécie de mãe, deslizando logo para a situação de companheira amorosa, esperando contra toda a esperança unir-se ao infeliz moço que um dia lhe apareceu ferido em casa (cfr. cap. 18).

Albuquerque e Botelho são caracteres comuns da pequena fidalguia provinciana, dominados pela raiva e desejo de vingança. João da Cruz é um tipo bem urdido, espécie de bandido bom, disposto a tudo em prol dos amigos, mas sem escrúpulos nem remorsos perante o crime útil.

c) O espaço e o tempo.

Na parte introdutória da acção, o espaço dispersa-se por Vila Real, Lisboa, Cascais, Vila Real outra vez, Lamego, Coimbra e Viseu. Depois começa a reduzir-se aos arredores de uma cidade provinciana (Viseu), para ir ficando cada vez mais coarctado: celas do convento e da prisão, beliche de um barco.

Com o tempo sucede quase o mesmo. Sempre cronológico e contínuo, é a princípio vertiginoso, abarcando quatro décadas em poucas páginas, para se ir retardando depois cada vez mais na intriga propriamente dita, que abrange três anos. O ritmo narrativo rápido do capítulo primeiro passa logo a lento até quase atingir a intemporalidade no fim da obra, projectando-se no pensamento dos amorosos para além da morte.

d) Ponto de vista do narrador.

O subtítulo da obra — Memórias de uma Família — parece sugerir-nos que Camilo pretendia, talvez em novelas sucessivas, fazer toda a história dos Botelhos. A intriga assenta em factos reais: Simão Botelho existiu na realidade e foi preso (mas por ter ferido um criado de José Cardoso Cerqueira); foi julgado e o pai intercedeu por ele e foi condenado a degredo para a índia (mas não morreu na viagem — chegou lá em 7-11-1807); teve um irmão chamado Manuel que desertou e foi encoberto pelo pai. Todavia como se vê, os factos reais foram totalmente adulterados na novela. Algumas personagens são pura invenção.

O autor narra na terceira pessoa e, uma vezes, é omnisciente come se estivesse dentro das personagens e no meio dos acontecimentos; outras vezes, porém, confessa ter tido notícia do que conta através de cartas que transcreve (mais de uma dúzia) e até através de apontamentos ras¬cunhados por Simão.

As descrições são poucas e sumárias (convento de Viseu, ambiente que cerca Simão na altura do assassinato de Baltasar, o panorama do Porto visto da janela da prisão). Só em traços muito vagos é que sugere o retrato das personagens. Predominam o diálogo e a narração.

As peripécias são expostas com muita rapidez e economia de vocabulário, que está reduzido ao mínimo essencial da comunicação, com predomínio de substantivos e verbos. A linguagem é retórica quer nos diálogos amorosos quer nos comentários do autor; no resto, como habitualmente no estilo camiliano, ora se reveste de eruditismo literário ora baixa ao nível popular, segundo as personagens que a usam. Alterna em toda a novela a prosa narrativa com a prosa poética, esta em evidência sobretudo nas cartas de amor.