12/04/2008

Características essenciais da obra vicentina

Origem e Evolução do Teatro Vicentino

É natural que, em muitos dias, os reis das idades passadas morressem de tédio, encerrados entre as quatro paredes do palácio. A missão de os divertir devia então aliciar muitos habilidosos, ávidos de mercês e de dinheiro.

Gil Vicente tentou essa sorte e temos de concordar que o êxito foi estrondoso. A sua carreira de dramaturgo começou na noite de 7 para 8 de Junho de 1502. O ourives (?) lembrou-se de distrair com uma pantomina pastoril, de carácter laudatório, a Rainha D. Maria, convalescente de parto. Aqueles 112 versos agradaram tanto a Dona Leonor, viúva de D. João II, que pediu ao improvisado actor para lhos repetir nas matinas do Natal. Entendeu Gil Vicente que o assunto da peça não condizia com a solenidade litúrgica e compôs outra, o Auto Pastoril Castelhano. D. Leonoi não cabia em si de entusiasmada e encomendou-lhe nova peça para o Dia de Reis. E apareceu na devida altura o Auto dos Reis Magos. Estava decidida a vocação do nosso maior dramaturgo (cfr. Marques Braga — Obras Completas de Gil Vicente, Ed. Sá da Costa, I, págs. XVI-XVII).

Costuma chamar-se a Gil Vicente o fundador ou pai do teatro português. Embora na Idade Média, como se disse, se efectuassem entre nós representações teatrais, sobretudo de carácter religioso, a sua estrutura, por rudimentar, não permite que as consideremos obras literárias em sentido estrito. Daí o interesse manifestado na Corte e até nas classes populares pelas inovações dos autos vicentinos.


a) Influência de Encina.

Por detrás destes factos, devemos descortinar influências estritamente literárias. Gil Vicente conhecia as representações medievais, cujas modalidades indicámos acima. Não foi, contudo, por esses figurinos que talhou as primeiras obras: limitou-se então a imitar o teatro de Juan deL Encina.

Juan del Enchia (1469?-1529) é considerado o pai do teatro espanhol. Escreveu as conhecidas Éclogas de Navidad e mistérios sobre a Paixão e a Ressurreição. Nas suas peças já é notória a transição do teatro medievo para o renascentista. Os temas bíblicos são evocados em ambientes de misticismo, tendo pastores por personagens e utilizando uma expressão retintamente popular (o saiaguês, falado na pequena comarca de Sayago, da província de Zamora).

Os elementos pastoris de Encina agradaram ,tanto a Gil Vicente, que, até ao fim da sua carreira, nunca os pôs totalmente de parte.


b) Evolução de temas.

Depois de explorar com candura e simplicidade o teatro bíblico-bucólico, tentou Gil Vicente um outro género dramático de maior efeito cénico: a farsa. Sem que os motivos religiosos tenham sido postos de parte, foi a sátira aos costumes da época que absorveu o melhor da actividade do dramaturgo numa segunda fase da sua vida de escritor.

Por último, já na plena posse de um ascendente raro sobre as várias camadas sociais e amparado pela Corte que muito o estimava, dedicou-se à tragicomédia alegórica de grande espectáculo.

Em face do que fica disto, podemos resumir a evolução do teatro vicentino nas poucas linhas que se seguem.

1. De 1502 a 1508, predominam nele os autos pastoris e outras peças de motivos religiosos, com acção dramática muito rudimentar, quase sempre fechada ao mundo exterior.

2. De 1508 a 1519, aparecem os temas de crítica social e os patrióticos. Os temas religiosos surgem de vez em quando, mas em função da sátira. A acção das peças ganha certo dramatismo e o diálogo torna-se mais vivo e natural.

3. De 1521 a 1536, o teatro de Mestre Gil enriquece-se com a introdução da mitologia, do enredo novelesco, do conto dramatizado, da alegoria fantasista. O diálogo é mais fluido, mais gracioso e mordaz. A crítica é mais atrevida, com alusões a pessoas presentes às representações.