


Caetano da Maia
Personagem da obra Os Maias de Eça de Queirós, é o pai de Afonso da Maia. A figura de Caetano da Maia aparece como símbolo do "português antigo e fiel", apoiante do Absolutismo em decadência (fiel ao infante D. Miguel), "que se benzia ao nome de Robespierre, e que, na sua apatia de fidalgo beato e doente, tinha só um sentimento vivo - o horror, o ódio ao Jacobino, a quem atribuía todos os males, os da pátria e os seus, desde a perda das colónias até às crises da sua gota."
Opositor do liberalismo e intolerante com as tendências revolucionárias, Caetano da Maia expulsou o filho de casa, desterrando-o para Santa Olávia, no Douro, por este se misturar com os simpatizantes da Revolução Francesa, cujos ideais eram para ele odiosos.
Carlos da Maia
Protagonista masculino do romance Os Maias, filho de Pedro da Maia e de Maria Monforte, cresce na companhia do avô, que lhe proporciona uma educação inglesa, nos antípodas da que recebera o pai, Pedro. Carlos estuda Medicina em Coimbra, onde conhece Ega, e viaja demoradamente pela Europa. Regressado a Lisboa, destaca-se pela sua superioridade: "Alto, bem feito, de ombros largos, com uma testa de mármore sob os anéis dos cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistíveis olhos do pai, de um negro líquido, ternos como os dele, e mais graves. Trazia a barba toda, castanha-escura, rente na face, aguçada no queixo - o que lhe dava, com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma fisionomia de belo cavaleiro da Renascença". Rapidamente impressiona a sociedade lisboeta, fascinando a condessa de Gouvarinho, com quem tem uma aventura, e granjeando a admiração bacoca de Dâmaso. Cheio de projectos profissionais - instalar um laboratório, exercer a sua actividade de médico, fundar uma revista -, Carlos acaba por cair no diletantismo e na inactividade. Envolve-se com Maria Eduarda, ignorando que é seu irmão. O desfecho trágico deste amor, sublinhado pela morte do avô, marcará definitivamente o seu percurso desistente. Acabará em Paris, assumindo a sua posição diletante de homem rico "que falhou na vida".
Cohen
Os Cohen são figuras importantes na sociedade lisboeta. Em Os Maias, de Eça de Queirós, Jacob Cohen é "o respeitado director do Banco Nacional, o marido da divina Raquel, o dono dessa hospitaleira casa da Rua do Ferregial onde se jantava tão bem."
Judeu e banqueiro, "com aquele sorriso indulgente de homem superior", é muito influente.
A sua esposa Raquel Cohen, "divinamente bela" e "seráfica", era provocante, leviana e adúltera. "Era alta, muito pálida, sobretudo às luzes, delicada de saúde, com um quebranto nos olhos pisados, uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um ar de romance e de lírio meio murcho: a sua maior beleza estava nos cabelos, magnificamente negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ela deixava habilmente cair numa massa meio solta sobre as costas, como num desalinho de nudez. Dizia se que tinha literatura, e fazia frases. O seu sorriso lasso, pálido, constante, dava lhe um ar de insignificância."
Mulher de trinta anos, Raquel Cohen aparece numa ligação íntima a Ega, que a adorava. No entanto, esta relação rapidamente se desfez, quando o Cohen descobre e expulsa aquele da sua casa.
Cruges
Maestro e pianista, o Cruges surge, em Os Maias, de Eça de Queirós, como amigo de Carlos e, anteriormente, da sua mãe Maria Monforte. Íntimo do Ramalhete, é, de acordo com a obra, "um diabo adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de génio". Possui uma "grenha crespa que lhe ondulava até à gola do jaquetão". Apesar da genialidade que lhe reconhecem, mostra-se desmotivado pois não encontra na sociedade lisboeta quem se interesse pelo seu trabalho. Diz ele: "Se eu fizesse uma boa ópera, quem é que ma representava?".
Artista talentoso, o Cruges surge como um representante do realismo pela atitude de desprezo que assume em relação a Alencar e por partilhar concepções muito próximas das de Ega, a personagem que mais se opõe ao ultra-romantismo e que advoga o naturalismo.
Eusebiozinho
Personagem de Os Maias de Eça de Queirós, é o primogénito de uma das Silveiras, "senhoras ricas da Quinta da Lagoaça" na região do Douro, Eusebiozinho era também conhecido por Silveirinha. Filho da viúva D. Eugénia, e irmão da Teresinha, aparece em Os Maias de Eça de Queirós como representante da educação tradicional e retrógrada portuguesa.
Eusebiozinho era, em criança, um "menino molengão e tristonho", de "perninhas flácidas", com "as mãozinhas pendentes e os olhos mortiços". Amigo de infância de Carlos, com quem brincava em Santa Olávia, levava, continuamente, pancada daquele.
Habituado a memorizar e com "um edificante amor por alfarrábios e por todas as coisas do saber", cresceu sem motivações, casou-se, mas enviuvou cedo. Mais tarde, para se distrair, procurava bordéis ou aventureiras de ocasião, parecendo "mais fúnebre, mais tísico".
O diminutivo do nome é irónico e contrasta com a personagem Carlos que, desde criança, se revela saudável e cheio de vida. Com Eusebiozinho, Eça de Queirós critica e ridiculariza a educação tradicional portuguesa que não prepara para a vida. Mesmo em adulto, esta personagem é um falhado medíocre, de triste figura e com ar tísico.
Gouvarinhos
Os Gouvarinhos faziam parte da sociedade de elite em Os Maias. O conde de Gouvarinho era um político incompetente mas poderoso. Ministro e par do Reino, era "um homem alto, de lunetas, poseur...". Conservador e com pouca cultura, o "conde de Gouvarinho, além de muito maçador e muito pequinhento, não tinha nada de cavalheiro." É o representante da incompetência do poder político.
A sua esposa, a condessa de Gouvarinho, "uma senhora inglesada, de cabelo cor de cenoura, muito bem feita..." é filha de um comerciante inglês do Porto. "Carlos achava-a picante, com os seus cabelos crespos e ruivos, o narizinho petulante e os olhos escuros, de um grande brilho, dizendo mil coisas. Era deliciosamente bem feita - e tinha uma pele muito clara, fina e doce à vista".
Provocante, leviana e adúltera, traía o conde, mas as difíceis relações matrimoniais resultavam de questões de dinheiro e daquele ser muito aborrecido, pois "quando começava a repisar, a remoer, não se podia aturar". No envolvimento com Carlos da Maia, esta mulher de trinta e três anos revela-se apaixonada e impetuosa. Este abandona-a ao achar que é uma mulher sem qualquer interesse e demasiado fútil.
João da Ega
Personagem de Os Maias, de Eça de Queirós. Licenciado em Direito, destacou-se em Coimbra tanto pela rebeldia como pelo sentimentalismo e pelos seus amores, tornando-se um amigo inseparável de Carlos da Maia. Dependente economicamente da mesada da mãe, uma rica fidalga de Celorico de Basto, vive parasitariamente à sombra de Carlos. Trata-se de um fidalgo rico de província, audacioso e com fama de ser "o maior ateu, o maior demagogo que jamais aparecera nas sociedades humanas". Sempre pronto a escandalizar, é capaz de defender a escravatura ou a revolução, só para chocar os interlocutores. Gosta de se fazer notar e de ser lisonjeado nos círculos que frequenta. De entusiasmo fácil, arrebatado e violento, inicia vários projectos, como a criação de uma revista que revolucionasse o ambiente cultural português e um livro intitulado As memórias de um Átomo, que nunca foram concluídos. Rende-se a uma intriga amorosa romântica e banal, envolvendo-se com a mulher do banqueiro Cohen. Do ponto de vista da narrativa, cabe-lhe um papel importante na evolução da intriga trágica, pois é ele quem toma conhecimento da existência de documentos que provam o parentesco de Carlos e Maria Eduarda. Quer pelo seu retrato físico ("a sua figura esgrouviada e seca, os pêlos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito"), quer pela sua postura crítica e de certa forma distanciada de permanente acusador dos males do país, mas estando ele próprio não isento de ridículos, quer pela sua intervenção em defesa do realismo-naturalismo, já para não invocar a similitude dos nomes, Ega tem sido visto em muitos aspectos como uma espécie de alter-ego de Eça.
Maria Monforte
Conhecida na sociedade lisboeta como a "negreira" por ser filha de um açoriano que fez fortuna no comércio de escravos, Maria Monforte é uma personagem importante em Os Maias de Eça de Queirós, na medida em que do seu casamento e separação resulta a intriga principal que envolve os seus filhos Carlos da Maia e Maria Eduarda.
Mulher bela, que escandaliza a sociedade lisboeta com as suas "toilettes excessivas e teatrais", é a mulher fatal romântica que se casa com Pedro da Maia e que o abandona numa paixão fulminante pelo italiano Tancredo. Maria Monforte é uma "magnífica criatura" com "cabelos loiros, de um oiro fulvo" que "ondeavam de leve sobre a testa curta e clássica"; tem "os olhos maravilhosos" e "um perfil grave de estátua"; "a sua face, grave e pura como um mármore grego, aparecia realmente adorável, iluminada pelos olhos de um azul sombrio"; possui um "colo ebúrneo" e "tranças de oiro"; lembra "um ideal da Renascença, um modelo de Ticiano".
De acordo com Beatriz Berrini, em Portugal de Eça de Queirós, "Não há outra personagem feminina actuante, mesmo que secundariamente, como Maria Monforte. Maria rompe um casamento rico, nobre, que a fizera aceita na sociedade (salvo pelo avô), e parte para uma vida errante e imprevisível. Após a morte de Tancredo, arruinada, perseguirá aventuras cada vez mais mesquinhas, fúteis, embrutecedoras. O texto aprecia-a negativamente. Inclusive através do embevecimento tolo de um Alencar ou de um Ega. O primeiro diz a Carlos que a mãe "tinha literatura e da melhor"; frequentara ele devotadamente os seus salões, como o "seu cavaleiro e seu poeta". Ega, num momento de estroinice juvenil, dissera um dia a Carlos que lhe invejava a mãe, "uma inspirada, que por amor de um exilado abandonara fortuna, respeitos, honra, vida!". Afonso, varão de outras idades, esse, chamá-la-á de prostituta."
Mulher dominadora, consegue, após o casamento, que aquelas que lhe chamavam "negreira", invejosas da sua beleza e dos seus vestidos, venham agora às recepções no seu palacete de Arroios e se considerem suas amigas. E numa atitude de insurreição contra o pai de Pedro, que a excluía por ser filha de "negreiro", Maria Monforte rejeita a fortuna do marido e vinga-se, quer recusando o nome de Afonso para o filho e preferindo Carlos Eduardo, quer deixando o mesmo filho aos cuidados do pai e do avô.
Anos mais tarde, as notícias sobre a Monforte vêm de Paris, viúva e numa vida de marginalidade com altos e baixos, mas sempre recusando qualquer ajuda dos Maias.
Palma "Cavalão"
Proprietário e redactor do jornal "A Corneta do Diabo", Palma Cavalão surge em Os Maias, de Eça de Queirós, como um jornalista corrupto, facilmente "agitado com o tinir do dinheiro". O nome de "Cavalão" fora atribuído ao Palma para o "distinguir de outro benemérito chamado Palma Cavalinho."
Sem carácter, publica artigos injuriosos ou retira-os desde que para isso lhe paguem. Como reconhece Ega, sobre um artigo do Dâmaso a denunciar as relações de Carlos e Maria Eduarda, "o artigo fora-lhe, simplesmente, encomendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre quem tem mais dinheiro."
Baixo e gordo, como se depreende das palavras de Alencar que o define como "canalha", "vil bolinha de matéria pútrida!..." e "chouricinho de pus!", Palma Cavalão é o símbolo do jornalismo de escândalo, feito por jornalistas imorais e corruptos.
Pedro da Maia
É uma das personagens principais do romance Os Maias, de Eça de Queirós. Filho de Afonso da Maia e pai de Carlos Eduardo da Maia e de Maria Eduarda da Maia, suicida-se após a fuga da sua esposa Maria Monforte.
Vítima do meio, com excesso de protecção, da educação típica portuguesa e da hereditariedade, é um fraco, um frustrado, sem capacidade para enfrentar as situações. Pedro da Maia é o melhor exemplo da caracterização imposta pelo romance experimental naturalista. O meio social, de um Romantismo decadente e "torpe", levou-o a vaguear pelos "lupanares e botequins" e a dedicar-se à boémia, ou, em alternativa, às visitas do "lausperene" e outras leituras de "Vidas de Santos". A educação tradicionalista e conservadora de Pedro deformou-lhe a vontade, tornando-o devoto, piegas e fraco, arrastando-o para um casamento apressado, instável e falhado, que acabou no suicídio. Hereditariamente, o retrato de Pedro assemelha-se em tudo ao de sua mãe, Maria Eduarda Runa, inclusive nos seus estados mórbidos: "Ficara pequenino e nervoso como Maria Eduarda, tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua linda face oval de um trigueiro cálido, dois olhos maravilhosos e irresistíveis, prontos sempre a humedecer se, faziam no assemelhar a um belo árabe. Desenvolvera se lentamente, sem curiosidades, indiferente a brinquedos, a animais, a flores, a livros. Nenhum desejo forte parecera jamais vibrar naquela alma meio adormecida e passiva: só às vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Itália. Tomara birra ao padre Vasques, mas não ousava desobedecer lhe. Era em tudo um fraco; e esse abatimento contínuo de todo o seu ser resolvia se a espaços em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo, murcho, amarelo, com as olheiras fundas e já velho. O seu único sentimento vivo, intenso, até aí, fora a paixão pela mãe." (Cap. I)
Steinbroken
Personagem do romance Os Maias, de Eça de Queirós, Steinbroken é apresentado como um conde, diplomata e ministro da Finlândia. Torna-se amigo de Afonso da Maia e íntimo do Ramalhete depois de pretender alugar umas cocheiras e de as ter recebido como oferta. É Carlos que explica que Steinbroken queria "alugar umas cocheiras e complicou essa simples transacção com tantas finuras diplomáticas, tantos documentos, tantas coisas com o selo real da Finlândia, que o pobre Vilaça, aturdido, para se desembaraçar, remeteu-o ao avô. O avô, desnorteado também, ofereceu-lhe as cocheiras de graça. Steinbroken considera isso um serviço feito ao rei da Finlândia, à Finlândia".
Steinbroken é um homem "muito fino, um gentleman, entusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma autoridade no whist."; era, também especialista em canto, como todos os da sua família, e "levara parte da sua carreira ao piano". No fim da obra, Carlos da Maia é informado por Ega que Steinbroken era agora "Ministro em Atenas", na Grécia.