07/01/2007

Trovadorismo

Limites cronológicos
(1198-1418)


As primeiras décadas desta época transcorrem durante a guerra de reconquista do solo português ainda em parte sob domínio mourisco, cujo derradeiro acto se desenrola em 1249, quando Afonso III se apodera de Albufeira, Faro, Loulé, Aljezur e Porches, no extremo sul do País, batendo definitivamente os últimos baluartes sarracenos em Portugal. E apesar de tão absorvente a prática guerreira durante esses anos de consolidação política e territorial, a actividade literária beneficiou de condições propícias e pôde desenvolver-se normalmente. Todavia, cessada a contingência bélica, observa-se o recrudescimento das manifestações sociais típicas dos períodos de paz e tranquilidade ociosa, entre as quais a literatura.

Em resultado desse clima pós-guerra, a poesia medieval portuguesa alcança, na segunda metade do século XIII, seu ponto mais alto.

A origem remota dessa poesia constitui ainda assunto controverso.

Admitem-se quatro fundamentais teses para explicá-la:

  • a tese arábica, que considera a cultura arábica como sua velha raiz;
  • a tese folclórica que a julga criada pelo povo;
  • a tese médio-latinista, segundo a qual essa poesia ter-se-ia originado da literatura latina produzida durante a Idade Média;
  • a tese ditúrgica considera-a fruto da poesia litúrgico-cristã elaborada na mesma época.

Nenhuma delas é suficiente para resolver o problema, tal a sua unilateralidade.

Todavia, é da Provença que vem a inspiração. Aquela região meridional da França tornara-se no século XI um grande centro de actividade lírica, mercê das condições de luxo e fausto oferecidas aos artistas pelos senhores feudais. As Cruzadas, compelindo os fiéis a procurar Lisboa como porto mais próximo para embarcar com destino a Jerusalém, propiciaram a movimentação duma fauna humana mais ou menos parasitária, em meio à qual iam os jograis. Estes, penetrando pelo chamado "caminho francês" aberto nos Pirinéus, introduziram em Portugal a nova moda poética.

Fácil foi sua acomodação à realidade portuguesa, graças a ter encontrado um ambiente favoravelmente predisposto, formado por uma espécie de poesia popular de velha tradição. A íntima fusão de ambas as correntes (a Provença) e a popular) explicaria o carácter próprio assumido pelo trovadorismo em terras portuguesas.

A época inicia-se em 1198 (ou 1189), com a cantiga dedicada por Paio Soares de Taveirós a Maria Pais Ribeiro, e termina em 1418, quando Fernão Lopes é nomeado Guarda-Mor da Torre do Tombo, ou seja, conservador do arquivo do Reino, por D. Duarte.


Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa