O tema escolhido por Camões para o seu poema foi toda a história de Portugal, como se vê pelo próprio título: Os Lusíadas. Esta palavra (neologismo inventado por André de Resende) designa os Portugueses, que a erudição humanística assim nobilitava como descendentes de Luso, filho ou companheiro de Baco. O próprio autor explicita o seu propósito, ao afirmar que canta "o peito ilustre lusitano".
Para acção nodal, escolheu Camões a viagem de Vasco da Gama, uma rota marítima como as de Ulisses e Eneias. Havia dela relatos pormenorizados - o do roteiro de Álvaro Velho, o de Castanheda na História do Descobrimento e Conquista da Índia, o de João de Barros nas Décadas, além das versões orais que certamente corriam. Era a propósito da viagem do Gama que Camões pretendia evocar toda a história de Portugal, sendo o próprio Gama e um dos seus companheiros aproveitados (à imitação dos poemas clássicos) para narradores principais da história.
Mas a viagem do Gama não bastava a Camões para estruturar uma epopeia clássica. Uma obra de arte narrativa deste tipo exige uma unidade de acção, isto é, a convergência dos acontecimentos para uma situação crucial, e seu desenlace; por outras palavras: um enredo. Na viagem do Gama mal descobriu Camões um enredo, mas sobretudo uma sequência cronológica de acontecimentos. Mais ainda: num poema narrativo não podem dispensar-se caracteres palpitantes e paixões, que movem a acção; e entre os protagonistas da viagem também Camões não viu caracteres ou paradigmas flagrantes, como são os dos poemas homéricos, apesar da sua proporção sobre-humana. Os heróis de Camões raramente parecem de carne; faltam-lhes carácter e paixões. São, em geral, estátuas processionais, solenes e inacessíveis. Na resolução desta dificuldade de dar unidade dinâmica e caracteres ao seu poema, o Poeta encontrou a seu favor certas praxes greco-romanas do género, que lhe forneceram protótipos de uma intriga entre deuses apaixonados. O dinamismo aparente de Os Lusíadas não reside tanto nas dificuldades e peripécias da viagem do Gama como na rivalidade que opõe Vénus, protectora dos Portugueses, a Baco, inimiga deles. Desta intriga resultam os obstáculos que a esquadra encontra na costa oriental africana, a tempestade no Índico (aliás fictícia, desconhecida dos cronistas, ou antes, deslocada do princípio para o fim da viagem) e as intrigas que indispõem contra os Portugueses o Samorim. Baco é quem, disfarçado, prepara, onde pode, mau ambiente aos Lusos, quem em sonhos lança a desconfiança contra os recém-vindos, quem leva os deuses marítimos a desencadear a tempestade. É Vénus, por outro lado, quem intercede por eles junto de Júpiter, quem se serve das ninfas para relaxar o esforço dos deuses marítimos que agitam as ondas, etc. Os deuses desejam, palpitam, lutam, têm nervos, em contraste com os homens históricos, que (à excepção de Veloso e dos amorosos) parecem de bronze ou de mármore. Tudo se passa como se os deuses desencadeassem ainda todas as forças, físicas ou psíquicas, que movimentam o mundo sublunar - ou fossem eles essas mesmas forças ignotas, mas, ao mesmo tempo, e com certa ironia, neles se traduzissem os mais secretos móbeis humanos.
É certo que, por sob a sua história imaginária de inspiração clássica, o Poeta procura ressalvar a possibilidade de uma interpretação positiva: os contactos de Baco e Mercúrio com os homens passam-se em sonho ou em encarnações humanas. Os próprios deuses poderiam ser forças angélicas, demoníacas ou astrológicas, muito aceites no tempo e pelo próprio Camões, numa palavra, "causas segundas", intermediárias entre a causa primordial e os acontecimentos visíveis. Mas o facto é que todo o peso da sugestão poética vai cair no maravilhoso. Com o desfecho do poema, a ficção mitológica dissolve-se. Na Ilha dos Amores as deusas marinhas concedem aos nautas, então de regresso, todas as volúpias, e com elas a imortalidade; o Gama substitui Neptuno no amor de Tétis, senhora das águas. E neste ponto a mesma Tétis, declarando que os deuses servem só para fazer poemas, esclarece que tal mitologia é meramente alegórica. Sem ela, contudo, o poema perderia muito da sua palpitação e encanto.
Formalmente, a mitologia desempenha portanto uma função central n'Os Lusíadas: a de lhe dar uma unidade de acção e um enredo dinâmico. Mas Camões procurou tirar dela um partido concepcional e estético mais original.
O que anima esteticamente Os Lusíadas não são, pois, as qualidades propriamente épicas, a identificação afectiva do leitor com heróis. São, em primeira evidência, as qualidades textuais com que recria uma visão luminosa da vida: o verso oratório em que se vazam os discursos do Velho do Restelo, de Nun'Álvares, do Gama, da própria Inês de Castro; as fórmulas cantantes e densas que se fixaram na tradição nacional letrada; a evocação majestosa dos esplendores do Olimpo, a da beleza feminina (a "bela forma humana", que as redondilhas Sobre os rios acabarão por esconjurar); a nitidez e precisão da frase, por vezes enredada com transposições e liberdades sintácticas modeladas sobre o latim e com a sobrecarga de alusões mitológicas; a prodigiosa arte do ritmo, que já tivemos ocasião de apreciar na obra lírica, e que aqui se adapta, ora à movimentação, ao pandemónio das batalhas (classicamente sugerido por formas onomatopeicas), ora à lentidão tediosa das calmarias, ora ao paraíso luxurioso da ilha de Vénus, à majestade olímpica, ao pitoresco marítimo ou etnográfico, às situações mais picantes.
Mas Os Lusíadas opõem às inverosimilhanças dos poemas antigos o seu próprio realismo, e exprimem deveras um senso novo do mundo e das maravilhas reais ("Que estranheza, que grandes qualidades!; E tudo sem mentir, puras verdades."). Isso confere, afinal, como veremos, uma função nova aos mitos antigos.
Camões não quis apenas fazer uma enciclopédia histórica, mas também uma enciclopédia naturalista, contrapartida quanto possível real do antigo maravilhoso homérico. Para isso, descreveu impressivamente regiões, situações estranhas e fenómenos naturais mal conhecidos, enquadrando tudo numa variante ainda então corrente da cosmologia ptolemaica. Por vezes estas descrições sugerem a minúcia e precisão dos grandes pintores naturalistas do Renascimento, como Dürer ou Miguel Ângelo; o Poeta procura avivá-las recorrendo a imagens flagrantes: tal a descrição do escorbuto, doença típica da nova navegação transoceânica, a da tromba marítima, comparada nas suas várias fases a uma sanguessuga chupando o sangue, a um "vaporzinho", uma coluna, um pé, um cano. Esta notação do mundo faz também de Os Lusíadas a obra mais elaborada da literatura naturalista portuguesa de Quinhentos, com o seu ponto de partida e o seu ponto de chegada bem caracterizados: de um lado, como ponto de partida, comparações que, na peugada dos autores clássicos, dos bestiários medievais, dos emblemas de Alciato, usam as coisas da natureza como meros símbolos de qualidades ou defeitos morais; do outro lado, o equivalente moderno da tensão épica, a maravilha dos novos mundos que se abrem ao mundo já banalizado, uma surpresa e pitoresco comuns aos relatos postos em crónica por Zurara, à Carta de Vaz de Caminha, a tantos passos dos itinerários e diários de bordo, e à Peregrinação de Mendes Pinto. Apesar de algumas imagens marítimas se inspirarem em poemas narrativos italianos, o maravilhoso oceânico de Os Lusíadas é reconhecido como o "grande predecessor" de Moby Dick, 1851, o famoso romance realista alegorizado da vida no mar, pelo seu próprio autor, Herman Melville.
Outra característica também tipicamente renascentista de Os Lusíadas, e em oposição à severa moral medieva, é - já o vimos a outro respeito - a palpitação afrodisíaca que vibra em todo o poema, exaltação do "amoroso ajuntamento", lei do universo
que não somente dá vida aos malferidos,
mas põe em vida os inda não nascidos.
Vénus, por cujas "lisas colunas" os desejos se enrolam como hera, quando, despida, pretende amolecer o poderoso Júpiter, seu pai, é a rainha irresistível do mundo:
no ar lascivos beijos se vão dando.
Ela, por onde passa, o ar e vento
sereno faz, com brando movimento.
Não se trata de uma ou outra nota erótica a condimentar a narrativa: é uma tensão permanente, ressumante a cada pretexto, distendendo-se e repousando finalmente na ilha de Vénus, coroamento do poema, a ilha Afortunada, a utopia onde Camões transfigura a sua mais aguda percepção do maravilhoso real, o maravilhoso do amor. A Ilha dá a imagem de um possível regresso ao Éden bíblico, através de um desejo sensual que, por mediação das ninfas e de Tétis, se ergue até a uma visão transparente de toda a máquina do mundo - vista de fora, num arrebatamento de gnose mística.
A expressão sugestiva e nobilitante deste pan-erotismo é uma das razões profundas do maravilhoso pagão de Os Lusíadas. O mito antigo, ao assumir esta função, extra-orbita da simples alegoria. Dá corpo visível a um impulso não racionalizado, é a antropomorfização imaginosa de uma força vital. Neste sentido o maravilhoso pagão não se reduz a um ornamento retórico; compraz a curiosidade do Poeta, faminto de todas as apetências de amor e violência que não se cansa de registar em anedotas míticas ou históricas, portuguesas ou antigas.
Essa esfera do maravilhoso alterna com a daquele outro maravilhoso real, geográfico, restritamente corográfico, meteorológico ou etnográfico que os Descobrimentos proporcionavam: ao da cosmografia ptolemaica; ao maravilhoso guerreiro, quer das proezas cavaleirescas de recorte novelístico, quer desse novo espanto, o da artilharia naval; e até ao maravilhoso cristão, aliás em grande parte destinado a sagrar em Ourique o direito divino do fundador da monarquia, a sagrar também D. João I por indícios celestes, e a sobrenaturalizar vários corajosos feitos no ultramar. O poema realiza a proeza retórica de congraçar todas estas maravilhas tão díspares.
Assim, nos casos de amor alcançam Os Lusíadas a sua maior pulsação emotiva; o temperamento amoroso é inerente à nova concepção de herói, o herói lusíada camoniano, que não chega a encarnar de todo numa personagem do poema, mas se desprende do conjunto. Nota-se isto na história do gigante Adamastor, que pretende ser ameaçador e terrível, e acaba por se tornar comovente e deplorável no choro disforme com que lamenta a irremediável falência da sua paixão por Tétis. Sente-se no Adamastor o símbolo de uma experiência amorosa, o desejo desiludido pelo dissipar de uma miragem:
que te custava ter-me neste engano
ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada?
Dir-se-ia que para Camões, como já para a novela arturiana da fase cortês, e para os redactores do Amadis, a virilidade da coragem bélica se liga tão intimamente ao temperamento amoroso como ao aristocrático desprezo dos bens monetários.
História da Literatura Portuguesa,
2002 Porto Editora (DVD)
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