27 de Nov de 2009

Intenções inerentes à forma de "Os Lusíadas"


O tema escolhido por Camões para o seu poema foi toda a história de Portugal, como se vê pelo próprio título: Os Lusíadas. Esta palavra (neologismo inventado por André de Resende) designa os Portugueses, que a erudição humanística assim nobilitava como descendentes de Luso, filho ou companheiro de Baco. O próprio autor explicita o seu propósito, ao afirmar que canta "o peito ilustre lusitano".
Para acção nodal, escolheu Camões a viagem de Vasco da Gama, uma rota marítima como as de Ulisses e Eneias. Havia dela relatos pormenorizados - o do roteiro de Álvaro Velho, o de Castanheda na História do Descobrimento e Conquista da Índia, o de João de Barros nas Décadas, além das versões orais que certamente corriam. Era a propósito da viagem do Gama que Camões pretendia evocar toda a história de Portugal, sendo o próprio Gama e um dos seus companheiros aproveitados (à imitação dos poemas clássicos) para narradores principais da história.
Mas a viagem do Gama não bastava a Camões para estruturar uma epopeia clássica. Uma obra de arte narrativa deste tipo exige uma unidade de acção, isto é, a convergência dos acontecimentos para uma situação crucial, e seu desenlace; por outras palavras: um enredo. Na viagem do Gama mal descobriu Camões um enredo, mas sobretudo uma sequência cronológica de acontecimentos. Mais ainda: num poema narrativo não podem dispensar-se caracteres palpitantes e paixões, que movem a acção; e entre os protagonistas da viagem também Camões não viu caracteres ou paradigmas flagrantes, como são os dos poemas homéricos, apesar da sua proporção sobre-humana. Os heróis de Camões raramente parecem de carne; faltam-lhes carácter e paixões. São, em geral, estátuas processionais, solenes e inacessíveis. Na resolução desta dificuldade de dar unidade dinâmica e caracteres ao seu poema, o Poeta encontrou a seu favor certas praxes greco-romanas do género, que lhe forneceram protótipos de uma intriga entre deuses apaixonados. O dinamismo aparente de Os Lusíadas não reside tanto nas dificuldades e peripécias da viagem do Gama como na rivalidade que opõe Vénus, protectora dos Portugueses, a Baco, inimiga deles. Desta intriga resultam os obstáculos que a esquadra encontra na costa oriental africana, a tempestade no Índico (aliás fictícia, desconhecida dos cronistas, ou antes, deslocada do princípio para o fim da viagem) e as intrigas que indispõem contra os Portugueses o Samorim. Baco é quem, disfarçado, prepara, onde pode, mau ambiente aos Lusos, quem em sonhos lança a desconfiança contra os recém-vindos, quem leva os deuses marítimos a desencadear a tempestade. É Vénus, por outro lado, quem intercede por eles junto de Júpiter, quem se serve das ninfas para relaxar o esforço dos deuses marítimos que agitam as ondas, etc. Os deuses desejam, palpitam, lutam, têm nervos, em contraste com os homens históricos, que (à excepção de Veloso e dos amorosos) parecem de bronze ou de mármore. Tudo se passa como se os deuses desencadeassem ainda todas as forças, físicas ou psíquicas, que movimentam o mundo sublunar - ou fossem eles essas mesmas forças ignotas, mas, ao mesmo tempo, e com certa ironia, neles se traduzissem os mais secretos móbeis humanos.
É certo que, por sob a sua história imaginária de inspiração clássica, o Poeta procura ressalvar a possibilidade de uma interpretação positiva: os contactos de Baco e Mercúrio com os homens passam-se em sonho ou em encarnações humanas. Os próprios deuses poderiam ser forças angélicas, demoníacas ou astrológicas, muito aceites no tempo e pelo próprio Camões, numa palavra, "causas segundas", intermediárias entre a causa primordial e os acontecimentos visíveis. Mas o facto é que todo o peso da sugestão poética vai cair no maravilhoso. Com o desfecho do poema, a ficção mitológica dissolve-se. Na Ilha dos Amores as deusas marinhas concedem aos nautas, então de regresso, todas as volúpias, e com elas a imortalidade; o Gama substitui Neptuno no amor de Tétis, senhora das águas. E neste ponto a mesma Tétis, declarando que os deuses servem só para fazer poemas, esclarece que tal mitologia é meramente alegórica. Sem ela, contudo, o poema perderia muito da sua palpitação e encanto.
Formalmente, a mitologia desempenha portanto uma função central n'Os Lusíadas: a de lhe dar uma unidade de acção e um enredo dinâmico. Mas Camões procurou tirar dela um partido concepcional e estético mais original.

O que anima esteticamente Os Lusíadas não são, pois, as qualidades propriamente épicas, a identificação afectiva do leitor com heróis. São, em primeira evidência, as qualidades textuais com que recria uma visão luminosa da vida: o verso oratório em que se vazam os discursos do Velho do Restelo, de Nun'Álvares, do Gama, da própria Inês de Castro; as fórmulas cantantes e densas que se fixaram na tradição nacional letrada; a evocação majestosa dos esplendores do Olimpo, a da beleza feminina (a "bela forma humana", que as redondilhas Sobre os rios acabarão por esconjurar); a nitidez e precisão da frase, por vezes enredada com transposições e liberdades sintácticas modeladas sobre o latim e com a sobrecarga de alusões mitológicas; a prodigiosa arte do ritmo, que já tivemos ocasião de apreciar na obra lírica, e que aqui se adapta, ora à movimentação, ao pandemónio das batalhas (classicamente sugerido por formas onomatopeicas), ora à lentidão tediosa das calmarias, ora ao paraíso luxurioso da ilha de Vénus, à majestade olímpica, ao pitoresco marítimo ou etnográfico, às situações mais picantes.

Mas Os Lusíadas opõem às inverosimilhanças dos poemas antigos o seu próprio realismo, e exprimem deveras um senso novo do mundo e das maravilhas reais ("Que estranheza, que grandes qualidades!; E tudo sem mentir, puras verdades."). Isso confere, afinal, como veremos, uma função nova aos mitos antigos.
Camões não quis apenas fazer uma enciclopédia histórica, mas também uma enciclopédia naturalista, contrapartida quanto possível real do antigo maravilhoso homérico. Para isso, descreveu impressivamente regiões, situações estranhas e fenómenos naturais mal conhecidos, enquadrando tudo numa variante ainda então corrente da cosmologia ptolemaica. Por vezes estas descrições sugerem a minúcia e precisão dos grandes pintores naturalistas do Renascimento, como Dürer ou Miguel Ângelo; o Poeta procura avivá-las recorrendo a imagens flagrantes: tal a descrição do escorbuto, doença típica da nova navegação transoceânica, a da tromba marítima, comparada nas suas várias fases a uma sanguessuga chupando o sangue, a um "vaporzinho", uma coluna, um pé, um cano. Esta notação do mundo faz também de Os Lusíadas a obra mais elaborada da literatura naturalista portuguesa de Quinhentos, com o seu ponto de partida e o seu ponto de chegada bem caracterizados: de um lado, como ponto de partida, comparações que, na peugada dos autores clássicos, dos bestiários medievais, dos emblemas de Alciato, usam as coisas da natureza como meros símbolos de qualidades ou defeitos morais; do outro lado, o equivalente moderno da tensão épica, a maravilha dos novos mundos que se abrem ao mundo já banalizado, uma surpresa e pitoresco comuns aos relatos postos em crónica por Zurara, à Carta de Vaz de Caminha, a tantos passos dos itinerários e diários de bordo, e à Peregrinação de Mendes Pinto. Apesar de algumas imagens marítimas se inspirarem em poemas narrativos italianos, o maravilhoso oceânico de Os Lusíadas é reconhecido como o "grande predecessor" de Moby Dick, 1851, o famoso romance realista alegorizado da vida no mar, pelo seu próprio autor, Herman Melville.
Outra característica também tipicamente renascentista de Os Lusíadas, e em oposição à severa moral medieva, é - já o vimos a outro respeito - a palpitação afrodisíaca que vibra em todo o poema, exaltação do "amoroso ajuntamento", lei do universo

que não somente dá vida aos malferidos,
mas põe em vida os inda não nascidos.


Vénus, por cujas "lisas colunas" os desejos se enrolam como hera, quando, despida, pretende amolecer o poderoso Júpiter, seu pai, é a rainha irresistível do mundo:

no ar lascivos beijos se vão dando.
Ela, por onde passa, o ar e vento
sereno faz, com brando movimento.

Não se trata de uma ou outra nota erótica a condimentar a narrativa: é uma tensão permanente, ressumante a cada pretexto, distendendo-se e repousando finalmente na ilha de Vénus, coroamento do poema, a ilha Afortunada, a utopia onde Camões transfigura a sua mais aguda percepção do maravilhoso real, o maravilhoso do amor. A Ilha dá a imagem de um possível regresso ao Éden bíblico, através de um desejo sensual que, por mediação das ninfas e de Tétis, se ergue até a uma visão transparente de toda a máquina do mundo - vista de fora, num arrebatamento de gnose mística.
A expressão sugestiva e nobilitante deste pan-erotismo é uma das razões profundas do maravilhoso pagão de Os Lusíadas. O mito antigo, ao assumir esta função, extra-orbita da simples alegoria. Dá corpo visível a um impulso não racionalizado, é a antropomorfização imaginosa de uma força vital. Neste sentido o maravilhoso pagão não se reduz a um ornamento retórico; compraz a curiosidade do Poeta, faminto de todas as apetências de amor e violência que não se cansa de registar em anedotas míticas ou históricas, portuguesas ou antigas.
Essa esfera do maravilhoso alterna com a daquele outro maravilhoso real, geográfico, restritamente corográfico, meteorológico ou etnográfico que os Descobrimentos proporcionavam: ao da cosmografia ptolemaica; ao maravilhoso guerreiro, quer das proezas cavaleirescas de recorte novelístico, quer desse novo espanto, o da artilharia naval; e até ao maravilhoso cristão, aliás em grande parte destinado a sagrar em Ourique o direito divino do fundador da monarquia, a sagrar também D. João I por indícios celestes, e a sobrenaturalizar vários corajosos feitos no ultramar. O poema realiza a proeza retórica de congraçar todas estas maravilhas tão díspares.


Assim, nos casos de amor alcançam Os Lusíadas a sua maior pulsação emotiva; o temperamento amoroso é inerente à nova concepção de herói, o herói lusíada camoniano, que não chega a encarnar de todo numa personagem do poema, mas se desprende do conjunto. Nota-se isto na história do gigante Adamastor, que pretende ser ameaçador e terrível, e acaba por se tornar comovente e deplorável no choro disforme com que lamenta a irremediável falência da sua paixão por Tétis. Sente-se no Adamastor o símbolo de uma experiência amorosa, o desejo desiludido pelo dissipar de uma miragem:

que te custava ter-me neste engano
ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada?

Dir-se-ia que para Camões, como já para a novela arturiana da fase cortês, e para os redactores do Amadis, a virilidade da coragem bélica se liga tão intimamente ao temperamento amoroso como ao aristocrático desprezo dos bens monetários.


História da Literatura Portuguesa,
2002 Porto Editora (DVD)




O ideal renascentista da Epopeia


A ideia de realizar um poema heróico sobre a expansão portuguesa manifesta-se já desde o século XV, dentro e fora de Portugal. O humanista italiano Ângelo Policiano ofereceu-se a D. João II para cantar em verso latino os seus feitos, e Luís Vives exaltou os Descobrimentos numa dedicatória a D. João III. No prólogo do Cancioneiro Geral, Garcia de Resende lamenta que os feitos dos Portugueses não estejam condignamente cantados. António Ferreira, apesar da sua aversão - várias vezes manifesta - pela vida guerreira e marítima, encorajou mais de um confrade a escrever a epopeia, e ele mesmo ensaiou o estilo heróico em mais de uma ode e nos Epitáfios de vários personagens históricos, como D. Afonso Henriques, D. Dinis, D. João I, regente D. Pedro. Este projecto dos Humanistas relaciona-se com a ambição de ressuscitar um dos mais nobres géneros greco-romanos. As viagens dos Portugueses prestavam-se a uma comparação emuladora com as de Ulisses, dos Argonautas e de Eneias, assim como os seus feitos guerreiros com os dos Gregos e Troianos.
O género épico, isto é, narrativo, tinha para o classicismo do Renascimento certas regras abstraídas de modelos, que eram sobretudo a Ilíada e a Odisseia homéricas, a Argonáutica de Apolónio de Rodes e a Eneida de Virgílio. Assim se impusera o esquema de uma intriga dos deuses, divididos em partidos, numa determinada acção humana (uma guerra, uma viagem marítima...). A Eneida, embora se tenha destacado muito de entre os poemas heróicos em latim, deve considerar-se uma fonte já secundária destas regras, porque surgiu como repto imitativo aos poemas homéricos.
Ora estes correspondem a uma fase civilizacional de que Virgílio e os poetas do Renascimento já estavam muito afastados. Para Homero, os deuses constituíam entidades reais, forças superiormente vivas, e por isso voluntárias e antropomórficas, que irrompiam da realidade e que participavam nas lutas dos bandos dos guerreiros ou piratas dos arquipélagos e costas do Mediterrâneo oriental, vários séculos antes de Cristo. Cada qual deles está pessoalmente empenhado em alcançar a vitória para o seu bando de adoradores, e portanto o seu critério do justo é o de um clã. Os homens, por sua vez, pondo à prova os seus músculos em combates singulares, ou a sua astúcia em enganar o adversário, e até os deuses adversos, ganham proporções sobre-humanas, candidatam-se à imortalidade. Por isso os poemas homéricos caracterizam-se pelo relevo impressionante e inesquecível dos seus heróis. Se quisermos um paralelo, devemos procurá-lo nas epopeias bárbaras de civilizações até certo ponto comparáveis à que precedeu e originou o das cidades gregas: os Niebelungos, a Chanson de Roland, o Cantar de Mio Cid, as Sagas islandesas, com os quais se aparenta a tradição heróica de Afonso Henriques. Aquiles o iracundo, Ulisses das muitas manhas, Roldão o bravo, Oliveiro o prudente, e ainda Cid o campeador, embora mais complexo porque mais histórico, constituem uma galeria de heróis criada pela imaginação epopeica na sua fase própria. Notemos que nestas epopeias medievais o maravilhoso mitológico desempenha um papel muito menos importante do que nos poemas homéricos e, em geral, arcaicos: a visão do mundo era mais racionalmente unitária (monoteísta).
Deve acrescentar-se que estes poemas, surgidos na fase da literatura oral, eram tidos como relatos de acontecimentos verídicos, que as sucessivas versões, culminando na que acabou por ganhar a forma escrita, foram tornando cada vez mais inverosímeis. Mas já a Eneida é um poema de escola, feito segundo um modelo literário, e deve o interesse à sua cuidada factura, já sem repetições e unilinearidades "primitivas", ao trágico amor de Dido a Eneias, à oposição oratória entre personagens, e a outras qualidades do mesmo teor. As personalidades dos heróis vão-se apagando, destituídas de mola interior, como é flagrante no caso do "pio" Eneias, joguete nas mãos dos deuses, que de resto já na época de Virgílio tendiam a converter-se em alegorias filosóficas e políticas. O Estado juridicamente definido absorvera o destino dos antigos heróis gentílicos, mais individualizados.
Ressuscitar a epopeia homérica na época do Renascimento - quando o espírito abstractor de um mundo já muito mercantil pouco se prestava à admiração de heróis semidivinos; e quando a mitologia clássica, característica do género, era uma expressão irrecuperável, salvo para um certo naturalismo de insinuação estética - constituía um nobilitante desafio ao engenho dos poetas.
Os poemas épicos do Renascimento ou são romances cavaleirescos versificados, como o Orlando Enamorado de Boiardo e o Orlando Furioso de Ariosto, ou procuram reflorir, com grande margem de alegorias já sem a força dantesca, a grandiosidade da história teológica cristã, como a Jerusalém Libertada de Torquato Tasso. Na verdade, desde o século XII formas narrativas modernas (o conto, a novela e sobretudo o romance) sobrepunham-se ao género épico. A narração oral antiga (para audiência de praças ou festins) de um mundo animado e maravilhoso, onde cada herói vai talhando a sua própria lei, por entre as intrigas de uma outra humanidade superior, a dos deuses, dá lugar, em geral, à leitura (muda, ou em pequenos grupos) de enredos em cenários bem mais limitados, num mundo de coisas inertes, desprovido de qualquer maravilhoso capaz de enquadrar as aspirações de um certo individualismo (que afinal se reajusta transferindo-se de condições gentílicas para condições cada vez mais burguesas). Criações eruditas e artificiosas, fora de tempo, os poemas renascentistas em que se procurou ressuscitar a epopeia clássica dentro dos cânones homéricos e virgilianos malograram-se, como a Franciade de Ronsard, cujo canto I e único saiu no mesmo ano que Os Lusíadas.
Foi precisamente o desiderato da ressurreição da epopeia clássica segundo o padrão homérico que Camões procurou satisfazer, levando a cabo um objectivo característico dos escritores humanistas. O ambiente marítimo do assunto central aponta para a filiação do poema sobretudo na linhagem da Odisseia, da primeira metade da Eneida e dos poemas sobre os Argonautas escritos pelo grego Apolónio de Rodes e pelo romano Valério Flaco. E de facto alguns investigadores salientam algum débito de Camões ao poema Argonáutica (Feitos dos Argonautas) deste último.
À ideia da epopeia pátria andava associada certa ideologia nascida da expansão, e cujas raízes encontrámos já em Zurara. Segundo essa ideologia, os Portugueses cumpriam uma missão providencial, dilatando tanto o Império como a Fé: eram os Cruzados por excelência. As lutas internas entre Cristãos (Católicos e Reformados, Casa de França e Casa de Áustria), coincidindo com o avanço turco nos Balcãs, que chegara até Viena (1529) dois anos depois do saque de Roma por tropas luteranas do católico Carlos V, vinham tornar mais actual esta missão divina atribuída ao Reino Lusitano, exemplo que envergonharia o resto da Cristandade.


História da Literatura Portuguesa,
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26 de Nov de 2009

Geração de Elite

Por último, haverá a notar, nesta introdução ao estudo da Geração de 70, que o conceito, sempre tão ambíguo, de "geração" é aqui adoptado na sua acepção mais restrita de criação de ideias e de obras em que essas ideias se reflectem por um determinado número, inevitavelmente restrito, e grandes figuras da literatura portuguesa num determinado momento de confluência de tendências culturais. O sentido cronológico do termo "geração" só será, portanto, muito parcialmente respeitado. Quer isto dizer que se evitará a mera enumeração enciclopédica, embora se tenha a preocupação de proporcionar uma breve visão cronológica geral.
Assim, serão considerados como pertencentes à Geração de 70 sobretudo os que seguiram a "geração" no plano das ideias e não os que a ela eventualmente aderiram, prolongando-a istoricamente. Isto significa que à Geração de 70 pertencem, antes de mais, Antero de Quental, Eça de Queirós e Oliveira Martins. Nesta perspectiva, só secundariamente a ela pertencerão Ramalho Ortigão e, ainda mais secundariamente, um Teófilo Braga, um Gomes Leal, um Guerra Junqueiro, um Jaime Batalha Reis, um Guilherme de Azevedo, um Alberto Sampaio ou ainda um Adolfo Coelho, pedagogo eminente, ou um Augusto Soromenho, professor do Curso Superior de Letras, os quais, no entanto, participaram nas primeiras conferências do Casino.
Em suma, haverá uma escolha rigorosa em função das obras criadas e das repercussões culturais dessas obras na sua época e actualmente. Uma revolução cultural é, sem dúvida, feita de múltiplas contribuições, mais ou menos perduráveis. Mas raríssimos serão, afinal, os seus verdadeiros mentores, aqueles que, formando uma elite como iniciadores, ficam para a posteridade, não só no confinado domínio da cultura portuguesa, como, sobretudo, no mais vasto domínio do grande saber universal. [...]
O certo é que, em última análise, relativamente ao ambiente histórico da burguesia da segunda metade do século XIX e à evolução dos ideais políticos sintetizados pela oposição socialismo-republicanismo, a Geração de 70 se dividiu, passando por duas fases principais.
Há, assim, a primeira fase, a de uma linha ideológica nitidamente evolutiva, que vai do período polémico, antes da década de 70, do "Bom senso e bom gosto" - polémica de Antero, ainda ao lado de Teófilo Braga, em Coimbra, contra o provincianismo cultural da degenerescência romântica dominada por António Feliciano de Castilho (que, aliás, era um "clássico", defensor da clarté francesa, ou mais exactamente cartesiana, contra o "abstraccionismo" metafísico dos alemães, entusiasta de Molière contra Goethe) - ao período propriamente ideológico, em Lisboa, do Cenáculo e das Conferências do Casino de 1871, ano, não nos esqueçamos, da Comuna de Paris.
A segunda fase, que é a fase final e que corresponde exactamente ao fim do século, é a fase do grupo dos "Vencidos da Vida". É a fase em que Eça (como, aliás, Antero e Oliveira Martins) renuncia à acção política e ideológica imediata. Surge então a idealização vaga de uma aristocracia iluminada, contraponto do socialismo utópico. Prova-o, por exemplo, o elogio que Eça faz do rei D. Carlos l numa "Nota do mês" publicada na Revista de Portugal, sob o pseudónimo de João Gomes, e consagrada à morte de D. Luís l, igualmente exaltado pelo escritor:
"Talvez o povo, renovando um costume sentencioso das idades passadas, lhe venha a dar o nome de Luís-o-Bom. Hoje, nas sociedades democratizadas, não há já possibilidade histórica de que um Rei conquiste o cognome de Grande. [...] Um príncipe moderno, brilhante, cultivado, requintado, de aptidões complexas e fortes, de inteligência largamente absorvente, de vida excelentemente pura, sobe por seu turno ao trono sete vezes secular.
Começa este reinado no momento em que, pela dispersa hesitação das inteligências, pelo incurável enfraquecimento das vontades, pela desorganização dos Partidos, pela inércia das Classes, o Rei surge como a única força que no País ainda vive e opera. É por isso mesmo que a autoridade vital, que desde 1820 se escoara do trono e se espalhara pelas instituições democráticas e pêlos corpos que as encarnam, parece refluir ao Trono para nele se condensar de novo."
É a fase também da suprema ironia queirosiana. Do mesmo ano de 1889, note-se outro texto de Eça, publicado anonimamente no n.° 29 de Março do jornal O Tempo, em resposta a um comentário que, na véspera, Pinheiro chagas fizera, no Correio da Manhã, â designação de "Vencidos da Vida". O escritor começa por caricaturar, refe¬rindo-se ao "grupo jantante" que todas as semanas se reunia no Hotel Bragança:
"Homens que assim se reúnem poderiam logo, neste nosso bem amado país, ser suspeitados de constituir um sindicato, uma filarmónica ou um partido. Tais suposições seriam desagradáveis a quem se honra de costumes comedidos; o respeito próprio obriga-os a especificar bem claramente, em locais, que, se em certo dia se congregam, é apenas para destapar a terrina da sopa e trocar algumas considerações amargas sobre o Colares."
Logo adiante, o tom é mais dramático, definindo bem o espírito da Geração de 70 nesta sua fase final do grupo dos "Vencidos da Vida":
"... para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou - mas do ideal íntimo a que aspirava."
Que este "ideal íntimo", a que os mais importantes representantes da Geração de 70 aspiravam, não foi historicamente atingido prova-o ainda o suicídio de Antero, em 1891. Entretanto, a burguesia fin-de-siècle, indiferente às aspirações dos "Vencidos da Vida", prepara-se para uma nova fase da sua história, a da instauração da República, uma república que nasceu da pequena burguesia e que foi, como disse António Sérgio, "meramente formal, sem ideias, saída de uma romântica dramatização da política e sem nada melhorar no que é estrutural e básico".
Restam as grandes obras literárias dos maiores da Geração de 70. Essas, ainda que obrigatoriamente ligadas e mesmo momentaneamente dependentes de condições históricas e sociais específicas, não podem ser julgadas pelas mesmas leis de transformação e, eventualmente, de progresso.

Alberto Manuel Machado, A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária,
pp. 15-18, 34-37, Biblioteca Breve, 1977

A questão Coimbrã




Em 1865, após a longa crise da implantação do liberalismo em Portugal e sua adaptação à estrutura histórica do país, o Romantismo português propriamente dito já tinha dado quanto dele se podia esperar. Depois da morte de Almeida Garrett – intuição superior, descobridora de todos os elementos essenciais do génio lusitano –, a insurgência inerente ao movimento romântico personificara-se em Alexandre Herculano, cuja obra foi a primeira tentativa de uma história crítica de Portugal. Mas a rebeldia por ele representada desapareceu com a sua retirada para Vale de Lobos. Ficou então Castilho, ao redor do qual se agruparam em Lisboa as hostes ultra-românticas.
Castilho, porém, era exactamente o contrário de um rebelde. Grande purista, mestre do idioma, dotado de escassa imaginação criadora, nunca fora realmente romântico, embora seja em regra mencionado como terceiro mentor do movimento. Formado na dissolução do neoclassicismo arcádico, que nunca abandonou, encarnava uma peculiar adaptação das formas externas do Romantismo a um espírito pseudo-clássico. Fórmula esta que chegara nessa altura a entronizar-se como gosto oficial do constitucionalismo. Era ele por isso, o obstáculo com que havia de tropeçar a nova rebeldia da geração intelectual que por volta de 1865 estava se formando em Coimbra.
Esta geração já desde 1861 vinha dando provas de sua tendência para a rebeldia à disciplina universitária com ruidosos tumultos, irreverências e revoltas – que indicavam claramente a inconformidade da juventude académica com os valores oficiais da sociedade em que vivia. A chamada Questão Coimbrã ou do "Bom senso e Bom gosto" foi a primeira manifestação importante dessa mocidade, conhecida hoje nos manuais pelos nomes de Geração, Escola ou Dissidência de Coimbra e também Geração de 70, e que, com a adição de novos elementos afins, havia de realizar novas demonstrações dos seus intuitos reformistas na vida pública nacional.
Com a famosa Questão Coimbrã pode-se dizer que se iniciou o espírito contemporâneo nas letras portuguesas. Com ela entraram em conflito aberto o novo espírito científico europeu e o velho sentimentalismo, domesticado e retoricizado, do Ultra-Romantismo vernáculo. O novo lirismo que aparecia, social, humanitário e crítico, não se alçava apenas contra a tirania do gosto literário vigente, exercida por Castilho – que esses rapazes apelidaram de "árcade póstumo" - mas também, e de modo mais vasto, contra todos os conceitos políticos, históricos e filosóficos que ele e os seus satélites literários simbolizavam.
Às duas personalidades muito diferentes coube a chefia visível do fermento coimbrão de revolta: Antero de Quental (ilustração acima), o Príncipe da Mocidade, que já se dera a conhecer como poeta com várias obras (Sonetos, 1861, Beatrice, 1863, Fiat Lux, 1863, e Odes Modernas, 1865) em que tentava harmonizar uma inspiração sinceramente romântica com o espírito científico, e Teófilo Braga, que também tinha aparecido no mundo das letras com dois poemas cíclicos de padrão huguesco (Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras, 1864).
O motivo da Questão foi aparentemente trivial. Nesse ano de 1865, Pinheiro Chagas, um dos jovens corifeus da roda lisboeta do cego patriarca literário, publicara o Poema da Mocidade, ingénua biografia lírica em quatro cantos, típica do saudosismo ultra-romântico. Castilho, na célebre carta-posfácio dirigida ao editor do livro, na qual, entre grandes elogios, indigitava o jovem poeta para uma cadeira de Literatura, introduziu incidentalmente referências ironicamente adversas a Antero e a Teófilo, aludindo aos altos rumos metafísicos da poesia dos dois mancebos. A resposta não se fez esperar, tanto pelo carácter directo do ataque como pelo desejo de polémica dos novos, impacientes por afirmar em público a sua insubmissão iconoclasta e por medir forças com o inimigo. Antero lançou um opúsculo, intitulado Bom-Senso e Bom-Gosto (1865) – as duas virtudes que Castilho negara aos dois porta-estandartes dos académicos coimbrões –, no qual, com altiva ironia e com violentíssimos e sarcásticos desacatos, respondia ao venerando pontífice das letras oficiais. Os sequazes de Castilho treplicaram com aparatoso alarde de forças. A batalha estava travada. Os folhetos começaram a chover de um e de outro lado. Quental arremeteu com novo opúsculo, nesse mesmo ano, sob o título A Dignidade das Letras e as Literaturas oficiais. Pela sua parte, Teófilo replicou ao déspota do purismo e do léxicon com outro panfleto, Teocracias Literárias (1866).

O velho árcade não deixou de ter defensores ilustres. Um deles foi Ramalho Ortigão, que mais tarde se integrou plenamente no grupo de Coimbra, mas que nesta altura saiu à luta como paladino de Castilho em Literatura de Hoje (1866), repreendendo Antero com ásperos adjectivos pelo seu desrespeito – o que provocou um duelo entre ambos. Note-se, porém, que nesse folheto Ramalho marcou uma atitude de independência, criticando também a fuga de Castilho à luta das ideias.

Outro combatente das hostes de Castilho foi Camilo, que, em Vaidades irritadas e irritantes (1866 ), com o seu temível sarcasmo polémico, veio atacar a nova geração, – que lhe haveria de dar motivo para ulteriores refregas. Os panfletos saíram às dezenas, e derivavam mais e mais para o terreno das diatribes pessoais. A refrega entre os epígonos do Romantismo velho que agonizava e a juvenil rebelião do Realismo novo que despontava para a vida prolongou-se pelo ano de 1866.

A Questão, embora aparentemente literária, denunciava incompatibilidades mais profundas. Os jovens universitários de 1865 reagiam contra a falsidade que representavam muitos outros aspectos da vida nacional, produto da adaptação das formas alienígenas do liberalismo à velha estrutura tradicional do País. A revolta da mocidade coimbrã havia de eclodir num movimento político, filosófico e literário, cuja amplitude ultrapassou talvez a do próprio Romantismo. Este grupo que se sublevou contra Castilho era o mesmo que, acrescido de personalidades com tendências paralelas, havia de tratar, em 1871, nas Conferências Democráticas do Casino, de colocar Portugal a par da actualidade europeia, ligando-o com o movimento moderno, estudando as condições de transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa.
Eça de Queirós dá uma boa ideia da ânsia de renovação cultural dos estudantes universitários nessa época ao lembrar a ardente e fantástica Coimbra do seu tempo: "Pelos Caminhos de Ferro que tinham aberto a Península, rompiam cada dia, descendo da França e da Alemanha (através da França), torrentes de coisas novas, ideias, sistemas, estéticas, formas, sentimentos, interesses humanitários. Cada manhã trazia a sua revelação, como um sol que fosse novo. Era Michelet que surgia, e Hegel, e Vico, e Proudhon; e Hugo tornado profeta e justiceiro dos Reis; e Balzac com o seu mundo perverso e lânguido; e Goethe, vasto como um universo; e Poe, e Heine, e creio que já Darwin, e quantos outros! Naquela geração nervosa, sensível e pálida como a de Musset (por ter sido talvez como essa concebida durante as guerras civis) todas estas maravilhas caíam à maneira de achas numa fogueira, fazendo uma vasta crepitação e uma vasta fumarada !". "Quando o fumo [da Questão] se dissipou" – conta Antero, na sua Carta a W Storck –, "o que se viu mais claramente foi que havia em Portugal um grupo de 16 ou 20 rapazes, que não queriam saber nem da Academia nem dos Académicos, que já não eram católicos nem monárquicos, que falavam de Goethe e Hegel como os velhos tinham falado de Chateaubriand e de Cousin; e de Michelet e Proudhon como os outros de Guizot e Bastiat; que citavam nomes bárbaros e ciências desconhecidas, como glótica, filologia, etc.; que inspiravam talvez pouca confiança pela petulância e pela irreverência, mas que, inquestionavelmente, tinham talento e estavam de boa fé, e que, em suma, havia a esperar deles alguma coisa, quando assentassem. Os factos confirmaram esta impressão; os dez ou doze primeiros nomes da literatura de hoje saíram (salvo dois ou três) da Escola Coimbrã, ou da influência dela".

Hoje essa geração surgida à vida pública na famosa Questão é uma das mais brilhantes que a cultura portuguesa produziu em qualquer época. O carácter regenerador e de revisão de valores, o desejo de reforma do estilo da vida e da literatura do país, o europeísmo cultural, a preocupação com as raízes históricas da decadência, fazem dela um antecedente da grande geração espanhola de 98, que lhe é devedora em muitos aspectos fundamentais.

Guerra da Cal, Ernesto, Dicionário de Literatura

24 de Nov de 2009

Ideário de "Os Lusíadas"




N'Os Lusíadas combinam-se ou coexistem ideologias e ideários heterogéneos, além do sentimento da vida mais palpitante e mais congénito ao poeta, que acabámos de indicar. Lá encontramos ideias pessoais ou colectivas, ou até oficiais; de origem cavaleiresca feudal ou de origem humanística. Assim, o autor recolheu e lapidou muitos lugares-comuns oficializados que já tinham sido expressos por Zurara, Gil Vicente, João de Barros e tantos outros. Vê a história de Portugal como uma cruzada, iniciada por Afonso Henriques, que deveria servir de exemplo aos outros estados cristãos, então em luta fratricida

como os dentes de Cadmo desparzidos.

A famosa exortação aos estados cristãos - aos Alemães, "soberbo gado", rebelados contra o "sucessor de Pedro", ao "duro Inglês" que "nova maneira faz da Cristandade", ao "Galo indigno" que desonra o título de "cristianíssimo" atacando o Papa, à Itália "submersa em vícios mil" - para que se unam contra os Turcos, reproduz com maior eloquência exortações análogas de Gil Vicente, António Ferreira, João de Barros e outros, inspirados pela política dos reis de Portugal, interessados numa cruzada contra os Turcos que propiciasse a sua expansão no Oriente.
Tem-se querido interpretar esta concepção fazendo de Camões o paladino da "cultura ocidental", contra a barbárie. Mas, falando de barbárie e de cultura ocidental, cumpre não ignorar a ideologia guerreira, de conquista, frequentemente exaltada n'Os Lusíadas. Se julgarmos pelo sonho de D. Manuel e por outros passos, a nenhuma honra mais alta poderiam os povos do Oriente aspirar do que a de sofrer o "jugo" ou o "freio" português, imagens que aliás também caracterizam o domínio régio sobre os seus súbditos. E ao iniciar o seu discurso perante o rei de Melinde, Vasco da Gama anuncia o assunto nestes termos:

Primeiro tratarei da larga terra,
depois direi da sanguinosa guerra.


A uma "sanguinosa guerra" se reduziria com efeito toda a história de Portugal, segundo Camões, tirando os amores de Fernando, os de Inês de Castro, e pouco mais. Poderíamos dizer das suas estrofes o que o mesmo Camões diz das bandeiras que Paulo da Gama explicou aos Indianos:

Nelas estão pintadas as guerreiras obras
que o forte braço já fizera,
batalhas têm campais, aventureiras,
desafios cruéis, pintura fera.

Em vão procuraremos n'Os Lusíadas o elogio dos reis "lavradores", tão queridos de Sá de Miranda; ou a evocação dos "ofícios mecânicos", para os quais António Ferreira chama a atenção. Camões exprime fielmente a ideologia da nobreza guerreira, é certo que também letrada, dentro da qual ele próprio se inclui,

núa mão sempre a espada e noutra a pena.

Não admira, por isso, que o poeta censure a ganância mercantil quando se lhe oferece a ocasião. Fá-lo, por exemplo, a propósito das negociações do Gama com os de Calecut, para obter a entrada, no porto, de mercadoria portuguesa. Sem embargo de já se ter dito de Os Lusíadas que são a "epopeia do comércio" - o autor qualifica de "vil", isto é, como próprio de vilão, burguês, o dinheiro que intervém nesse memorável acto iniciador do comércio transoceânico, intencionalmente aberto pela viagem do Gama:

Veja agora o juízo curioso
quanto no rico, assi como no pobre,
pode o vil interesse e sede imiga
do dinheiro, que a tudo nos obriga.

Aliado a este sentimento aristocrático e guerreiro, detecta-se n'Os Lusíadas um individualismo abstracto. Embora não haja heróis de carne e osso no poema, todo ele é um friso de nomes aristocráticos em constante paralelo emulador com outros da Antiguidade; e não resta lugar para a acção anónima doutras camadas nacionais. Nada mais frisante a este respeito do que a narrativa dos acontecimentos de 1383-1385, sobretudo se a confrontarmos com a sua fonte, Fernão Lopes. Camões omite o episódio central da luta contra os Castelhanos, o cerco de Lisboa, cujo heroísmo colectivo Fernão Lopes narrou com uma vibração autenticamente heróica. Omite a acção dos "povos do reino", das "uniões", e fala apenas de Nuno Álvares, D. João I e Antão Vasques de Almada, protagonista da batalha de Aljubarrota, na qual resume toda a resistência. Desta maneira fica, afinal, apoucada essa luta em que a nacionalidade se manifestou como um todo, precisamente contra uma minoria aristocrática que ainda a não reconhecia. Isso não impede, é certo, que n'Os Lusíadas encontremos as únicas críticas sociais, e até políticas, realmente desassombradas, de Camões, feitas evidentemente sob o ponto de vista de uma ética aristocrática e monárquica ideal: no desfecho do canto VII recusa-se a exaltar todo aquele que "veio / por contentar o rei, no ofício novo / a despir e roubar o pobre povo", ou que não "pague o suor da servil gente"; no canto X vemos Cupido preparar uma campanha contra amores desencaminhados, como o dos que às mulheres preferem a caça (D. Sebastião), o dos egoístas aduladores, o dos amantes de mandos e riquezas; quase no final do poema, há uma censura clara ao desprezo beato das Letras, e repete-se uma já insistente condenação dos conselheiros inexperientes, nomeadamente dos clérigos que, em vez de orar ou missionar, se dedicam a satisfazer ambições.

Esta valorização exclusiva dos feitos de guerra, esta concepção da história nacional como uma sequência de proezas de heróis militares - características significativas da ideologia dominante em Portugal na segunda metade do século XVI - constituem hoje o peso morto conceptual d'Os Lusíadas. No entanto, encontramos no poema outro miolo mais vivo, na reacção dos deuses à audácia dos descobridores portugueses: por um lado, a ideia de Pátria, entendida sob a forma de comunidade linguística e independência dinástica, dá um sentido novo à já antiga exaltação das linhagens e seus barões assinalados, como reflexo da centralização monárquica e do culto do idioma nacional, difundido no Renascimento pelos humanistas de estatuto cortês; por outro lado, esse sentimento patriótico, então reforçado por historiadores, gramáticos e geógrafos, liga-se n'Os Lusíadas a uma apologia dos poderes humanos.
Assim, na sua significativa alocução no canto VI aos deuses marinhos, os mais directamente ameaçados pelas navegações transoceânicas que culminam com a do Gama, e por isso mais fáceis de alertar, Baco resume, e impugna, um ousado ideal de futura divinização colectiva da Humanidade, à custa dos antigos deuses, pois receia que, de progresso em progresso, os homens

venham a deuses ser, e nós humanos.

Do mesmo modo, Adamastor promete vingar-se dos Portugueses, por esta razão que declara ao Gama:

pois os vedados términos quebrantas
e navegar meus longos mares ousas.


Esta vitória dos homens sobre os deuses é uma ideia adequada ao impulso do Renascimento, que assistiu a um importante avanço no domínio do planeta por parte do Homem. É, aliás, também um mais vago ideal antigo, simbolizado pelo mito de Prometeu, o herói que roubou o lume divino para erguer os homens ao nível dos deuses. Camões realça-o, contrastando a heroicidade revolucionária com a sensatez do Velho do Restelo, que exprime o ponto de vista oposto, segundo lugares-comuns dos coros trágicos clássicos: o Velho alude ao mito de Ícaro, castigado pela ambição de querer elevar-se nos ares, ao mito de Prometeu, e o que é mais (e seria extremamente audacioso se não fosse feito por forma tão hábil), aproxima tudo isto, aproxima a própria viagem de Vasco da Gama, tema central da epopeia, da desobediência de Adão. A viagem do Gama, os Descobrimentos em geral aparecem assim, num relance, como renovação do Pecado Original: o da autodeterminação humana. Este orgulho humanista, de que a seguir encontraremos outros aspectos, verifica-se sobretudo nos lineamentos gerais do poema: repare-se que o humano Gama alcança, com a posse de Tétis, símbolo do domínio dos mares, aquilo que fora negado a Adamastor, um titã semidivino.
Resumindo, Camões pouco tem que ver com a ideologia burguesa então em avanço na Europa, com o comércio transoceânico encarado como tal; Os Lusíadas exaltam uma expansão que, na sua fase decisiva, foi conduzida em moldes monárquicos a favor da classe então dominante, e não pela concorrência capitalista privada, à maneira da Holanda. No entanto, a aristocracia que o Épico se propõe imortalizar tem a consciência de proceder a uma revolução no mundo, revolução de que o poeta não vê o resultado social, embora lhe atribua um significado político, religioso, científico e estético, que já basta para se orgulhar como indivíduo integrado numa comunidade nacional. Talvez possa, por isso, falar-se de uma tensão entre dois sentimentos opostos: o da dignidade do Homem, quebrantador impenitente de todos os vedados términos, colectivamente candidato à divinização, e o da sua insignificância de bicho da terra tão pequeno. O primeiro destes sentimentos alimenta-se da maravilha de todo um mundo geográfico recém-descoberto e de toda a funda apetência carnal camoniana; o segundo, daquela "austera, apagada e vil tristeza" em que o poeta asfixia, daquela decadência nacional cuja lúcida previsão se atribui ao Velho do Restelo, e da rígida hierarquia do cosmos ptolemaico, cujas esferas o Homem não conseguiria nunca atravessar sem se dividir em corpo e alma, e sem se render à divindade.

Podem descobrir-se ainda outras implicações ideológicas na efabulação mitológica do poema. Assim, em primeiro lugar, a exaltação dos próceres nacionais, a deformação que consiste em a eles restringir afinal a representação do povo lusíada (povo que, dentro de outro ambiente histórico, pudera fazer-se globalmente sentir em Fernão Lopes), toda essa subalternização, enfim, do génio poético ao mecenato que faz de Os Lusíadas uma glorificação versificada de gente de linhagem ou de coroa, vem trair-se naquela referida alienação estética em que o concreto da psicologia humana transita para as paixões mitológicas, como contrapeso do hieratismo oficial sob que pretende impor-se o grupo dirigente. Por outro lado, a ânsia de Camões por um amor sem barreiras sociais nem convenções hipócritas, e a consciência que tem do seu direito a um galardão terreno pela obra de poeta (não menos importante e máscula, a seu ver, que a guerreira) traduzem-se no poema, como vimos, pelo patrocínio de Vénus, pelo relevo atribuído à deusa em todas as acções dos nautas e dos outros heróis históricos, e pelo modo como sublinha e censura casos de ingratidão régia e senhorial, e, ainda mais vivamente, a falta do apoio devido aos que redouram a glória das armas com a glória, bem mais permanente, das letras.
Outro conceito importante a relevar n'Os Lusíadas é a contraposição da experiência e da observação directa à ciência livresca da Antiguidade. Trata-se de uma ideia característica dos grupos ligados à actividade marítima - astrónomos, pilotos, construtores de barcos, viajantes - que, para possibilitar a navegação no alto mar, tiveram de criar uma técnica apropriada com base na experiência, visto que nos livros não encontravam a chave dos problemas; e que, por outro lado, puderam verificar a falsidade de noções correntes na literatura geográfica medieval e antiga, tais como as da impossibilidade de antípodas ou de vida na zona tórrida, do prolongamento da África até ao pólo sul, da existência de seres com configuração semi-humana, semianimalesca, etc. Esta mentalidade experimental, precursora do empirismo científico de Bacon, teve representantes como Duarte Pacheco Pereira, D. João de Castro, o Dr. Pedro Nunes e o Dr. Garcia de Orta, que Camões conheceu na Índia. N'Os Lusíadas encontra-se, mais de uma vez, a observação de que os Antigos ignoravam regiões descobertas pelos Portugueses, e registam-se fenómenos a que os livros não se referem, como a tromba marítima, cuja descrição termina com este repto:

Vejam agora os sábios na escritura
que segredos são estes de natura.


No entanto, o saber experimental português do século XV não chegou a ultrapassar a fase do empirismo, não chegou a converter-se em atitude científica formalizada. Esta última veio a nascer de uma aproximação entre as descobertas de Arquimedes e outros precursores da mecânica e o desenvolvimento da técnica fabril, que entretanto se verifica em regiões como Veneza ou a Holanda, mas não em Portugal. A verdade é que as descrições camonianas de fenómenos meteorológicos, regiões geográficas ou da cosmologia ptolemaica subentendem uma atitude no fundo mais prática do que inquisitiva, e as suas referências ao escorbuto ou operações náuticas insinuam um sentimento de impotência humana ou de desinteresse pelo trabalho especializado, confiado ao saber mecânico. Não sabemos exactamente que significado lhes atribuía Camões. Mas (observemos) o empirismo, nesta fase, tanto podia conduzir a um estado mais adiantado na história da ciência, como a uma simples negação da inteligência, quer escolástica, quer mecanicista: a experiência, na medida em que parece negar a razão, pode levar, quer à dúvida metódica e à elaboração de modelos científicos, quer ao misticismo, que desiste da explicação e da transformação humanizante do universo.


História da Literatura Portuguesa
2002 Porto Editora (DVD)